Pesquisadores trabalham em um sistema de alerta que vai usar dados de garimpo, desmatamento e clima para avisar agentes de saúde sobre o risco de surtos de malária na Amazônia antes que eles estourem.
A ferramenta nasce de um estudo feito na Terra Indígena Yanomami, que mediu o tamanho exato da relação entre mineração ilegal e a doença e ficou em segundo lugar no Prêmio MapBiomas, anunciado em julho.
Cada 1% de área garimpada, 24% mais casos
A equipe liderada por Marcia Castro, da Escola de Saúde Pública T.H. Chan, da Universidade Harvard, cruzou imagens de satélite com registros do Ministério da Saúde. O resultado: um aumento de 1% na área garimpada no território Yanomami está associado a uma alta de 24% nos casos mensais de malária.
Publicado em novembro de 2025 na revista PLOS Neglected Tropical Diseases, o trabalho mostrou ainda que a doença cresceu em polos-base de saúde onde não havia mineração alguma, mas que funcionavam como rota de passagem dos garimpeiros.
“O garimpeiro se move muito, porque é preciso trazer insumos e maquinário”, disse Castro em reportagem de Xavier Bartaburu para a Mongabay Brasil. “Ao passar por essas áreas, você é um veículo do parasita enquanto caminha, e você pode ser picado pelo mosquito ao longo do caminho.”
A destruição da floresta fecha o ciclo: as poças de água parada abertas pelas minas viram criadouro, e a borda de mata fragmentada é justamente onde o mosquito Anopheles se concentra, segundo pesquisa publicada em janeiro de 2026 na Biology Letters. Outro levantamento já havia indicado que terras indígenas só funcionam como barreira contra a malária quando a floresta permanece preservada.
O retrato mudou depois que a força-tarefa federal enviada ao território em 2023 expulsou parte dos invasores: a área de garimpo caiu de cerca de 1.800 hectares em 2022 para 29 hectares em 2024. Entre janeiro e julho de 2026, o Ministério da Saúde registrou 7.600 casos de malária na terra indígena, 55% menos que os 17 mil do mesmo período do ano anterior, e nenhuma morte pela doença no primeiro semestre.
Alerta semanal de novas minas fica pronto em 2027
O sistema depende de uma ferramenta em desenvolvimento pelo MapBiomas, que passará a mostrar a cada semana a abertura de novas minas. Hoje, esses dados só são publicados uma vez por ano. A previsão é que o alerta semanal esteja disponível no início de 2027.
“Se o agente de saúde atuar onde estamos dizendo que pode haver um problema, ele poderá atuar antes do problema estourar”, afirmou Castro.
No tratamento, cerca de 1.150 Yanomami receberam a tafenoquina, remédio de dose única que reduz o risco de reinfecção; as recaídas caíram 61,9% entre março e junho de 2026, segundo o ministério. O mesmo medicamento ajudou o país a registrar o menor número de casos de malária em 48 anos.
O garimpo, porém, não desapareceu: parte dos invasores se embrenhou mais fundo na floresta ou migrou para a fronteira com a Venezuela. Fica também o mercúrio despejado nos rios, encontrado acima do limite da OMS em metade dos indígenas de Oiapoque, no Amapá.
Para Waihiri Yanomami, presidente da associação URIHI Yanomami, que já teve malária 13 vezes, o maior risco está no calendário eleitoral de outubro. “Eu tenho muito medo de a situação retornar ao que era durante o governo Bolsonaro”, disse. “Presenciei muitos casos do povo Yanomami sofrendo de malária e de desnutrição.”