Política

Itamaraty cobra explicações da Argentina sobre fuga de Flávio, mas governo quer encerrar o caso

Encarregada de Negócios argentina foi recebida em Brasília; Planalto evita embate público com Milei e trata episódio como assunto do Judiciário
Palácio do Itamaraty em Brasília ao lado da Casa Rosada: Itamaraty Argentina fuga Flávio Bolsonaro

O Itamaraty convocou nesta quinta-feira (29) a encarregada de Negócios da Embaixada da Argentina, María Emilia Cortés, para explicar como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usou o território argentino para deixar o Brasil rumo aos Estados Unidos.

Esse deve ser o único gesto diplomático. Segundo apuração do g1, o governo brasileiro decidiu virar a página e não entrar em disputa pública com a gestão de Javier Milei por causa do episódio.

Conversa no Itamaraty seguiu o protocolo

María Emilia Cortés foi recebida em Brasília pelo chefe do Departamento do Mercosul do Itamaraty, João Marcelo Galvão de Queiroz, que pediu informações sobre a saída do senador. Segundo diplomatas presentes, ela se comprometeu a repassar o conteúdo da conversa ao governo argentino.

Os mesmos diplomatas descrevem a convocação como praxe em situações desse tipo e dizem que não há novos passos previstos por enquanto. Eventuais medidas dependerão do avanço das investigações.

A Argentina já havia confirmado que Flávio embarcou com a família em um avião particular que deixou o país na noite de terça-feira (27).

A rota até a Flórida

Flávio, a esposa e as duas filhas entraram na Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu (PR) a Puerto Iguazú, na província de Misiones. Cerca de 40 minutos depois, às 23h30, embarcaram em um Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, da Baires Fly, empresa argentina de voos privados.

A decolagem foi às 0h22 de quarta-feira (28). O jato passou por Paraguai, Bolívia e Peru sem cruzar o espaço aéreo brasileiro e pousou em Guayaquil, no Equador, às 5h46 (horário de Brasília). Menos de uma hora depois, às 6h22, seguiu para os EUA.

O pouso aconteceu às 10h24 no Aeroporto Executivo de Fort Lauderdale, na região de Miami. Segundo o dono da empresa aérea, o voo foi pago com US$ 150 mil enviados por um intermediário a partir de uma conta nos Estados Unidos.

Entrada nos EUA com passaporte cancelado

Flávio deixou o Brasil depois que o STF determinou que ele entregasse os passaportes à Polícia Federal. Na terça-feira (27), um representante do Departamento de Estado americano informou que os EUA concederiam vistos ao senador e à família.

Registros da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) mostram que ele foi admitido na categoria DT, usada para autorizações temporárias, em geral por questões humanitárias, com permissão para ficar um ano no país. A consulta mostra ainda que ele entrou com um passaporte diplomático cancelado.

A PF havia apontado riscos “concretos e atuais” de fuga ao pedir a Alexandre de Moraes a apreensão do documento. Na véspera da travessia, a corporação já alertava o ministro e citava uma declaração de Eduardo Bolsonaro defendendo que o irmão deixasse o país caso perdesse a disputa pelo Planalto.

Planalto aposta no silêncio

Segundo o colunista Valdo Cruz, interlocutores aconselharam Lula a não falar mais sobre Flávio, a se concentrar no quarto mandato e a deixar claro que o problema do senador é com o Judiciário.

A relação com Buenos Aires já tinha gerado outro movimento diplomático neste ano: em julho, o Itamaraty chamou o embaixador do Brasil na Argentina depois que Milei criticou Moraes na convenção do PL.