O senador Flávio Bolsonaro (PL) saiu do Brasil e entrou na Argentina com a família na noite de terça-feira (27), segundo comunicado da Direção Nacional de Imigrações (DNI) argentina divulgado na madrugada de quarta (28). De acordo com o órgão, o senador, a mulher, Fernanda, e as duas filhas do casal cruzaram a fronteira às 22h50 pela Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, e embarcaram às 23h30 em um voo privado da Baires Fly S.A. com destino a Guayaquil, no Equador.
Ao longo da terça (27), a Polícia Federal checava a informação, publicada primeiro por um jornal argentino, de que ele teria cruzado a fronteira com Puerto Iguazú. A assessoria de Flávio, derrotado nas eleições de domingo (25), negava que ele tivesse deixado o país. Segundo apuração do g1, o senador não passou por nenhum posto regular de controle migratório brasileiro.
Checagem com autoridades argentinas
As autoridades brasileiras procuraram as argentinas para saber se havia algum registro de entrada do senador no país vizinho. Num primeiro momento, a DNI, órgão federal responsável pelo controle migratório e subordinado ao Ministério da Segurança Nacional, afirmou em nota que não tinha registro da entrada de Flávio. Um porta-voz da presidência argentina também negou à agência Bloomberg que o senador tivesse entrado no país. Na madrugada de quarta (28), porém, o órgão divulgou novo comunicado, no qual afirma que os quatro apresentaram documentação válida, não tinham impedimento legal para entrar na Argentina e tiveram a passagem registrada pelas autoridades migratórias, sem incidentes.
A publicação que deu origem à suspeita é do site argentino Infobae, segundo o qual Flávio teria cruzado a fronteira com seu documento de identidade e seguiria de Puerto Iguazú para os Estados Unidos em um jato Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW, da empresa Baires Fly S.A. Dados do site de monitoramento FlightRadar24 indicavam que a aeronave voou de Buenos Aires para Puerto Iguazú, onde chegou às 23h45 (horário de Brasília), e não havia deixado a cidade desde então. Esse horário diverge do informado pela DNI, que aponta o embarque às 23h30, e a plataforma permite que voos privados optem por não aparecer no rastreamento.
Na quarta (28), o g1 informou que a Baires Fly, dona do jatinho, é alvo de investigação na Justiça argentina por um suposto esquema de propina, segundo a imprensa local. Na mesma reportagem, o g1 relata que a aeronave transportou o senador, a mulher e as filhas da Argentina para os Estados Unidos, com parada no Equador; o comunicado da DNI, por sua vez, menciona apenas Guayaquil como destino do voo.
Ainda de acordo com a DNI, o órgão iniciou procedimentos de fiscalização da aeronave e de sua tripulação, e “não foi apresentado nenhum plano de voo que incluísse integrantes da família Bolsonaro”. Mais tarde, o governo argentino informou que a documentação do avião e dos tripulantes que estavam em Puerto Iguazú estava regular. O porta-voz da Presidência argentina, Adrián Ravier, acrescentou que não há pedido de asilo apresentado por Flávio. Fontes da PF em Foz do Iguaçu, segundo o blog da jornalista Andreia Sadi, também disseram não haver registro da passagem de Flávio pela fronteira até o momento da apuração.
A repercussão chegou ao Congresso argentino. Segundo o g1, parlamentares da oposição cobraram na terça (27) uma investigação sobre a possível passagem do senador pelo país. A senadora peronista Juliana Di Tullio pediu que o governo esclarecesse se o território argentino foi usado para a saída do Brasil, e a deputada Myriam Bregman, da Frente de Esquerda, também exigiu explicações das autoridades. Já o deputado socialista Esteban Paulón apresentou à Câmara um pedido formal de informações ao Executivo: queria saber se havia registros de entrada ou saída de Flávio e se o governo foi notificado sobre restrições judiciais ou retenção de documentos de viagem. Entre as hipóteses levantadas pelos congressistas estavam a de que ele tivesse cruzado a fronteira a pé, com documento brasileiro, ou usado o passaporte italiano.
A checagem aconteceu um dia depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar que o senador entregasse seus passaportes. A ordem foi dada na segunda-feira (26), e, segundo o g1, Flávio não cumpriu a determinação na terça (27). O Poder360 informou que os passaportes acabaram cancelados. A PF segue apurando as informações sobre a saída do senador do país.
Na noite da própria segunda-feira (26), um comboio de quatro carros pretos começou a deixar a residência de Flávio, no Lago Sul, em Brasília, a partir das 19h42, segundo apuração do Poder360. Os veículos seguiram por caminhos diferentes, o que dificultou o acompanhamento de jornalistas no local. A equipe da GloboNews acompanhou o grupo até a região da Ponte JK, onde os carros se separaram. Os automóveis são usados por pessoas ligadas ao senador, e não foi possível confirmar se ele ou familiares estavam em algum deles.
Na terça (27), o coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), disse a jornalistas que a direção do partido não foi informada sobre uma eventual viagem. Marinho afirmou ainda ter recebido de Flávio, pela manhã, uma mensagem na qual o aliado dizia que iria “dar um tempo”. O Poder360 relatou que o senador teria deixado o país rumo aos Estados Unidos; o destino do voo informado pela DNI, porém, é o Equador, e os Estados Unidos não constam do comunicado do órgão argentino.
Inquérito sobre apostas esportivas
A decisão de Moraes saiu do processo que investiga a relação de Flávio com o advogado Willer Tomaz. O inquérito apura um suposto esquema que envolveria empresas de Tomaz e apostas esportivas e corre sob sigilo de justiça.
Flávio e Tomaz dizem ser amigos, mas negam que sejam sócios e rejeitam qualquer irregularidade. A ordem de Moraes partiu de uma declaração de Eduardo Bolsonaro de que o irmão deveria deixar o Brasil caso perdesse para Lula. Flávio afirma que nunca cogitou essa possibilidade.
Caso Dark Horse
Além do inquérito sobre as apostas, Flávio é investigado formalmente no caso Dark Horse. A suspeita é que Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, que está preso, tenha transferido cerca de R$ 61 milhões a pedido do senador para bancar uma cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Nesse processo, a PF investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, entre outros possíveis crimes. A corporação já havia rejeitado a versão de que o dinheiro do filme seria apenas um patrocínio e apura se houve vantagem indevida.
A defesa do senador diz que a doação seguiu os trâmites legais, foi feita entre entes privados e não envolveu dinheiro público. No Supremo, o caso dos R$ 61 milhões está sob relatoria do ministro André Mendonça.