Política

PF vê risco concreto de fuga de Flávio Bolsonaro e cita dinheiro de Vorcaro em pedido a Moraes

Pedido de apreensão do passaporte liga fala de Eduardo, advogado em Miami e suspeita sobre quem banca a estrutura da família nos EUA
Distintivo da Polícia Federal sobre skyline de Miami ao entardecer, simbolizando PF risco fuga Flávio Bolsonaro

A Polícia Federal vê riscos “concretos e atuais” de que Flávio Bolsonaro (PL) deixe o Brasil. Por isso, pediu ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, que apreenda o passaporte do senador e o proíba de sair do país. Flávio foi derrotado na eleição presidencial de domingo (25).

Segundo o g1, o pedido diz que uma saída poderia ser justificada como suposta perseguição política. O documento também menciona a suspeita de que recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro tenham bancado a estrutura de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Os três argumentos da PF

O primeiro é o descumprimento da ordem de Moraes. Flávio não entregou o passaporte até as 11h desta terça-feira (27), quando o prazo terminou. A PF também apura se o senador já saiu do país mesmo com a proibição. A Gazeta do Povo informou que ele viajou aos Estados Unidos na terça sem cumprir a determinação.

O segundo é a declaração de Eduardo Bolsonaro de que o irmão deveria deixar o Brasil se perdesse a disputa pelo Planalto. Em entrevista a um programa americano na semana passada, o ex-deputado disse: “se meu irmão não vencer, sou a favor de que ele deixe o país. Sim, com certeza”. Para os investigadores, a fala “não pode ser examinada de forma isolada”. A PF lembrou ainda que Eduardo foi recentemente condenado por coação no curso do processo.

O terceiro envolve o advogado Willer Tomaz, investigado com Flávio em um inquérito sobre lavagem de dinheiro. Ele está em Miami desde agosto, depois de ser alvo da Operação Sem Desconto. Segundo a PF, Tomaz “dispõe de recursos financeiros suficientes para permanecer indefinidamente no exterior, caso assim deseje”. O pedido diz ainda que Eduardo mantém nos EUA uma estrutura pensada para uma permanência longa. Tomaz e Flávio negam participação em qualquer ilegalidade.

A proibição de sair do país e a ordem de entrega dos passaportes foram determinadas por Moraes na noite de domingo, com base justamente na declaração de Eduardo. Segundo levantamento do Poder360, a representação da PF foi assinada às 21h16 de domingo (25), apenas sete minutos depois de o sistema do TSE confirmar, às 21h09, a vitória de Lula, que teve 51,79% dos votos contra 48,21% de Flávio. Moraes atendeu ao pedido horas depois, no mesmo dia, e a intimação do senador ocorreu na segunda-feira (26), após ele visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. Flávio afirma que a decisão se baseou na fala do irmão.

Após a decisão, a PF cancelou os passaportes comum e diplomático do senador e incluiu um alerta migratório no sistema SONAR, de controle de fronteiras. Na manhã de segunda, ele foi intimado a entregar em até 24 horas eventuais passaportes de outras nacionalidades, prazo que se esgotou sem a entrega.

Em despacho assinado na segunda-feira (26), a que o g1 teve acesso, Moraes escreveu que a proibição de deixar o país era “consequência lógica e natural” do cancelamento e da entrega de passaportes, diante do “risco concreto de evasão do território nacional”. O ministro também considerou as cautelares apropriadas para a atual fase da investigação. No mesmo dia, Flávio criticou a ordem de entrega dos documentos e afirmou que não deixaria o país um dia após perder a eleição.

A versão da fronteira argentina

A suspeita de fuga cresceu quando um jornal argentino publicou que o senador teria cruzado a fronteira em Puerto Iguazú. A assessoria de Flávio negou a informação, e as autoridades argentinas não tinham registro da entrada.

Depois, segundo a Gazeta do Povo, aliados do senador e o próprio governo dos EUA disseram que ele foi a Miami com a família, em uma operação articulada por correligionários próximos e pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio. Segundo o Poder360, viajaram com ele a mulher e as duas filhas adolescentes, por se sentirem ameaçados por eventuais decisões de Moraes. Para a PF, Flávio já teria uma estrutura estabelecida no país para uma estadia prolongada. Aliados justificam a viagem como resposta a perseguição política.

Na quarta-feira (28), em nota, a PF fez a primeira manifestação oficial depois da confirmação de que o senador deixou o país. Segundo o g1, Flávio saiu do Brasil na noite de terça (27) pela fronteira do Paraná com a Argentina e, em Puerto Iguazú, embarcou em um jatinho particular com um passaporte italiano, concedido a ele em 2023. A aeronave seguiu para Guayaquil, no Equador, na madrugada de quarta, e de lá ele viajou para os Estados Unidos, onde foi à Flórida. A PF afirma que não há registro de saída pelos postos formais de controle migratório e investiga as circunstâncias do descumprimento das ordens judiciais.

Na mesma nota, a corporação detalhou que a representação enviada ao STF em 25 de outubro pedia, além da apreensão de passaportes e da proibição de deixar o país, a restrição de contato com outros investigados. A PF sustentou ainda que a decisão de Moraes sobre passaportes e a proibição de deixar o país não autorizava a prisão, a vigilância permanente ou outras medidas cautelares contra o senador, e que restrições a documentos de viagem, por si sós, não caracterizam a condição de foragido.

Duas frentes de investigação contra Flávio

A decisão de Moraes faz parte do processo que investiga a relação de Flávio com Willer Tomaz. A suspeita é de um esquema que envolveria empresas do advogado e apostas esportivas. O caso corre em sigilo de justiça. Segundo a Gazeta do Povo, uma empresa usada na suposta lavagem de dinheiro e evasão de divisas teve R$ 6 bilhões bloqueados por Moraes na semana passada.

O senador também é formalmente investigado em outro inquérito, sobre possíveis crimes ligados ao financiamento do filme Dark Horse, que conta a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O dinheiro de Vorcaro

A PF diz que ainda está apurando se recursos de Vorcaro foram usados para manter Eduardo nos EUA. O pedido a Moraes afirma que “não está descartada a hipótese” de que parte dos valores enviados por Vorcaro, por intermédio do empresário Antonio Freixo, para supostamente financiar o filme tenha custeado a permanência do ex-deputado no país. A suspeita, porém, não é nova: já em maio a corporação investigava se dinheiro ligado ao banqueiro pagou a permanência do deputado cassado no país, onde ele vive desde fevereiro de 2025.