O jato particular que levou o senador Flávio Bolsonaro (PL) e a família da Argentina para a Flórida foi pago por um intermediário do setor aeronáutico, que usou uma conta nos Estados Unidos. A afirmação é de Grande, dono da empresa aérea, em entrevista à agência AFP reproduzida pelo g1.
Segundo ele, o broker transferiu US$ 150 mil (R$ 800 mil) de uma conta de sua empresa em um banco americano para um banco argentino. O empresário se recusou a dizer quem é o intermediário e afirmou não conhecer quem o contratou.
Quem está por trás do voo
A identidade de quem financiou a saída do senador segue em aberto. Os jornais The New York Times e The Wall Street Journal publicaram que o avião teria sido contratado por Jason Miller, assessor de Donald Trump. A Casa Branca não comentou.
De acordo com Grande, o próprio intermediário disse que também não conhecia o contratante antes da operação. O broker tem dupla nacionalidade, argentina e americana, e mora na Flórida. A existência dele foi revelada primeiro pelo jornal argentino Perfil, com base em fontes anônimas.
Datas alteradas e embarque discreto
O voo foi pedido inicialmente para segunda-feira e depois remarcado para a tarde de terça. A decolagem, porém, só ocorreu depois da meia-noite, do aeroporto de Puerto Iguazú, na fronteira com o Brasil. Segundo autoridades argentinas, Flávio e a família passaram antes pelo controle migratório por terra. A travessia já havia sido registrada pelas autoridades argentinas na noite de terça (27), quando o grupo entrou por Misiones. Segundo o jornal argentino Clarín, o senador entrou no país com a mulher e as duas filhas às 22h50 daquele dia.
A imprensa argentina mostrou o senador chegando ao aeroporto em uma caminhonete filmada por emissoras de TV. Uma fonte do setor aéreo ouvida pela AFP contesta essa versão: naquele momento, ele já estaria dentro do avião, depois de entrar por outro acesso. Ainda não se sabe como Flávio saiu de Brasília e chegou à região de fronteira.
Passaporte italiano
A saída aconteceu depois que a polícia cancelou os passaportes do senador em uma investigação por suspeita de lavagem de dinheiro. A Polícia Federal já alertava para o risco concreto de fuga e pedira a apreensão do documento. Mesmo assim, Flávio embarcou com um passaporte italiano, segundo um documento do voo visto pela AFP.
Buenos Aires, Washington e a cautela do Planalto
O chefe de gabinete de Javier Milei afirmou que a decolagem ocorreu com documentos “em dia” e sem “impedimento da Interpol”. O presidente argentino vive há meses uma crise diplomática com Lula.
A Justiça argentina também passou a agir. Segundo o Clarín, a juíza federal María Eugenia Capuchetti, a pedido da procuradora Paloma Ochoa, determinou na quinta-feira (29) que órgãos do governo Milei preservem as imagens de câmeras de segurança que registraram a passagem de Flávio pelo país, incluindo as da Ponte Internacional Tancredo Neves, na fronteira com o Brasil, e as do aeroporto de Puerto Iguazú. A ordem foi enviada à Direção Nacional de Migrações, à Agência de Arrecadação e Controle Aduaneiro, à Polícia de Segurança Aeroportuária e à Gendarmaria Nacional.
A decisão se limita à preservação das gravações, sem exigir entrega imediata à Justiça. A magistrada também pediu os registros migratórios do senador e informações sobre eventuais pedidos de cooperação internacional ligados à situação judicial dele. O objetivo é reunir provas para avaliar se houve ajuda irregular do governo argentino, já que Flávio estava proibido pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, de deixar o país.
A apuração nasceu de denúncias do legislador Gabriel Solano e do deputado Esteban Paulón, que pedem a investigação de uma possível participação de autoridades argentinas. Os denunciantes citam Milei, o chanceler Pablo Quirno, a ministra da Segurança Alejandra Monteoliva e o assessor presidencial Santiago Caputo, que esteve em Misiones durante a passagem do senador. As denúncias foram reunidas em um único procedimento, e a Justiça argentina ainda avalia se abrirá formalmente uma investigação criminal.
Flávio não reconheceu a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno de domingo e diz que vai comandar a oposição a partir dos Estados Unidos. Em carta divulgada após chegar aos EUA, ele agradeceu a Milei e a Trump pelo apoio para deixar o país.
Trump evitou dizer se reconhece a vitória de Lula. “Acompanhei as eleições. Não tomei partido, mas vi o que estava acontecendo no Brasil, foi uma vergonha”, declarou antes de um ato eleitoral.
Em Brasília, a escolha é não abrir confronto com Washington. Um interlocutor de Lula disse que o governo prefere reagir com sobriedade e pragmatismo, porque se sente fortalecido pelo resultado das urnas. Para essa fonte, as falas de Trump sobre Flávio são ambíguas porque buscam proteger aliados sem comprometer interesses americanos.