Meio ambiente

COP17 termina na Armênia com menos da metade das metas de biodiversidade no rumo

Balanço do Marco de Kunming-Montreal aponta lacunas de dados, subsídios nocivos intactos e recursos muito aquém do prometido
Plenária da ONU com delegados reunidos, simbolizando o balanço das metas de biodiversidade COP17

A COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica termina nesta sexta-feira (30), em Yerevan, na Armênia. A rodada sai com um diagnóstico ruim: segundo o rascunho do documento final, menos da metade das metas nacionais de biodiversidade está no caminho para 2030.

O texto foi publicado pelo secretariado da convenção e ainda é negociado entre os 192 países signatários. Ele traz a primeira revisão do Marco Global de Kunming-Montreal, que fixa 23 metas de proteção da natureza até o fim da década.

Avanços desiguais e metas paradas

A revisão apresentada em Yerevan resulta da primeira avaliação global das 23 metas do Marco de Kunming-Montreal, iniciada em julho em Nairóbi. O primeiro problema aparece antes dos números: os relatórios nacionais chegaram com muitas lacunas de dados, e vários países têm pouca capacidade de monitoramento.

Com base no que foi reportado, o documento classifica o balanço dos indicadores como negativo. “As Partes informaram que menos da metade das metas nacionais relacionadas a qualquer meta global estavam em vias de ser alcançadas”, registra o texto.

Onde houve progresso

Os países citam como avanços as medidas para deter a extinção de espécies, o manejo sustentável de animais silvestres com benefícios a populações vulneráveis e o uso de Soluções Baseadas na Natureza contra os impactos das mudanças climáticas. Também relatam práticas sustentáveis na agricultura, na pesca, na aquicultura e na silvicultura.

Em financiamento público, incentivos positivos, capacitação, transferência de tecnologia e cooperação científica, o documento descreve avanços desiguais entre os países.

Onde o ritmo ficou para trás

Entre as metas com menos avanço estão o controle de espécies exóticas invasoras e a promoção de escolhas sustentáveis, como reduzir o desperdício de alimentos e a geração de resíduos. A conexão entre áreas protegidas terrestres, de água doce e marinhas por corredores verdes e azuis também aparece na lista. Essa foi uma das principais contribuições levadas pelo Brasil a Yerevan.

O texto aponta ainda pouco progresso em duas frentes: a exigência de que grandes empresas e instituições financeiras divulguem seus impactos e riscos à biodiversidade e a eliminação de subsídios nocivos. “Houve poucos avanços na mobilização e no acompanhamento dos incentivos financeiros e positivos do setor privado e na redução dos incentivos, incluindo subsídios, prejudiciais à diversidade biológica”, diz o documento.

Dinheiro longe da meta

Nos relatórios, sobretudo dos países menos desenvolvidos e dos pequenos Estados insulares, a falta de meios de implementação aparece como o obstáculo mais comum. Povos indígenas, comunidades locais, mulheres, jovens e pessoas com deficiência também relataram falta de recursos.

O Marco prevê mobilizar US$ 200 bilhões por ano até 2030, somando todas as fontes, dos quais US$ 30 bilhões em financiamento público internacional. Ouvida pela Agência Brasil, a diretora executiva da LACLIMA, Caroline Rocha, afirma que o financiamento global para a biodiversidade em 2025 é estimado entre US$ 7,9 bilhões e US$ 92,4 bilhões por ano.

Em Yerevan, foram anunciados US$ 60 milhões para o Fundo Global para a Biodiversidade (GBFF) e cerca de US$ 4,4 milhões em novos compromissos com o 9º ciclo do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF). Para Caroline, são valores modestos. Ela defende ampliar a lista de doadores, com a entrada de países como a China, e diversificar as formas de financiamento.

“O próprio desenho do Marco prevê que a maior parte do esforço venha do redirecionamento de US$ 500 bilhões em subsídios prejudiciais à natureza”, afirma. O sinal de atraso já existia antes da conferência: um relatório de Guterres alertava que, no ritmo atual, só 26% dos ecossistemas terrestres e 12% dos marinhos estariam protegidos em 2030.