Meio ambiente

Mundo restaura só um quarto da área prometida e precisa triplicar o ritmo até 2030, diz ONU

Rios, lagos e áreas úmidas chegam a apenas 4,5% da meta; Brasil tem 3,4 milhões de hectares em recuperação monitorados por satélite
Bandeira do Brasil sobre o emblema da ONU, ilustrando o relatório ONU restauração de ecossistemas e a meta global até 2030

Os países prometeram recuperar cerca de 1 bilhão de hectares de ecossistemas degradados até 2030, área maior que o Brasil. Até agora, só 252 milhões de hectares têm iniciativas de restauração documentadas, cerca de 25% do total.

O dado está no primeiro levantamento global sobre o tema, feito por três órgãos da ONU e divulgado nesta quinta-feira (29) na COP17 de Biodiversidade, em Yerevan, na Armênia.

Segundo a ONU, a recuperação de florestas, rios e outros ambientes precisa triplicar para que a meta internacional seja cumprida.

Meta de Kunming-Montreal exige triplicar o esforço

A referência é o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado em 2022, que prevê pelo menos 30% dos ecossistemas degradados do planeta sob restauração efetiva até 2030. A restauração é uma das 23 metas do marco, cuja primeira revisão global começou em Yerevan com um diagnóstico de atraso, como mostramos antes da abertura da conferência.

A ONU reconhece que houve avanços. Mesmo assim, avalia que, na metade da Década das Nações Unidas sobre Restauração de Ecossistemas, a natureza ainda não está sendo recuperada na escala nem na velocidade necessárias.

A organização também faz uma ressalva: estar sob restauração não significa estar recuperado. Muitos trabalhos ainda estão em andamento, e o efeito sobre a biodiversidade precisa ser acompanhado por anos. O levantamento reúne dados de governos e de iniciativas ambientais, com registros de 1966 a 2026.

Florestas na frente, águas para trás

Os ambientes terrestres somam cerca de 232 milhões de hectares, ou 92% da área identificada. A Ásia concentra 192,2 milhões de hectares. A China tem a maior extensão terrestre em recuperação, com aproximadamente 127,4 milhões.

Nos ecossistemas aquáticos, a situação é mais grave. Só 11 milhões de hectares de rios, lagos e áreas úmidas estão em restauração, distribuídos por 62 países, o que equivale a 4,5% da meta para 2030. Nas zonas marinhas e costeiras são 5,7 milhões de hectares em 46 países, cerca de 23% do objetivo.

A ONU admite que a falta de dados pode ter deixado parte das iniciativas fora da conta.

Brasil responde por mais da metade da área sul-americana

A América do Sul registra 5,4 milhões de hectares em restauração, dos quais 3,4 milhões estão no Brasil. O relatório cita o país como exemplo no uso de imagens de satélite e de sistemas de acompanhamento ambiental para identificar áreas em recuperação.

Entre os projetos brasileiros, a Araticum, que pretende restaurar 2 milhões de hectares no Cerrado, foi reconhecida pela ONU em agosto como Iniciativa de Referência da Restauração Mundial.

Dinheiro cobre pouco mais de um quinto do necessário

Em 2022, o financiamento global para restauração somou US$ 64 bilhões. Pelas contas da ONU, seriam necessários US$ 296 bilhões por ano até 2030 para cumprir os compromissos.

O relatório também pede ações contra as causas da degradação, como o desmatamento e a exploração inadequada dos recursos naturais. Entre os ganhos da restauração, aponta a geração de empregos, mais água disponível e a redução dos efeitos das mudanças climáticas. Estudos citados no documento estimam até 32 milhões de empregos criados no mundo até 2030.