Faltando 100 dias para a COP30 em Belém, apenas 25 países entregaram suas novas metas climáticas à ONU, aumentando a pressão por avanços. Entre os maiores emissores, só cinco atualizaram seus compromissos, o que preocupa especialistas e organizações. O evento, que começa em 10 de novembro, será crucial para manter vivo o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 °C.
Metas climáticas atrasadas e desafios para a COP30
Até o fim de julho, somente 25 países submeteram suas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) à ONU, representando pouco mais de 10% dos signatários do Acordo de Paris. Entre os 20 maiores emissores, apenas cinco apresentaram novos planos, e nem todos têm perspectiva de implementação imediata. O prazo oficial para entrega das NDCs era 10 de fevereiro, mas mais de 93% dos países perderam a data, forçando a ONU a estender o limite até setembro.
Segundo o embaixador André Correa do Lago, presidente da COP30, o governo brasileiro está mobilizado para buscar soluções e a Pre-COP em Brasília, em outubro, será estratégica. Especialistas apontam que a ausência das novas metas compromete a síntese técnica da ONU, fundamental para orientar as negociações e avaliar a ambição coletiva.
Os países que não enviaram suas NDCs respondem por 83% das emissões globais e quase 80% da economia mundial. Entre eles estão China, Índia, União Europeia, Rússia, Austrália e México. O Brasil entregou sua nova NDC em novembro de 2024, com meta de reduzir de 59% a 67% das emissões líquidas até 2035, mas o plano foi criticado por adotar uma “meta em banda”, considerada pouco ambiciosa.
Para Tatiana Oliveira, do WWF-Brasil, a mobilização da sociedade civil pode pressionar por metas mais alinhadas ao limite de 1,5 °C. Já Carolle Alarcon, da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, ressalta que o Brasil deve transformar suas particularidades em protagonismo climático, destacando metas de restauração de vegetação e necessidade de financiamento, governança e assistência técnica para implementar o plano.
Financiamento climático e transição energética em debate
Impasse financeiro e novas propostas
O maior entrave para a COP30 é o financiamento. Países ricos prometeram US$ 100 bilhões anuais até 2020, mas em 2023 o valor chegou a US$ 83,3 bilhões. A COP29 aprovou novo alvo de US$ 300 bilhões anuais até 2035, criticado por redes como a Climate Action Network. Brasil e Azerbaijão propõem elevar o financiamento a US$ 1,3 trilhão anuais, com recursos públicos, privados e mecanismos de garantias, além de taxação de carbono e redirecionamento de subsídios poluentes.
ONGs e governos do Sul Global defendem que metade dos recursos vá para adaptação e perdas e danos, com parte significativa destinada a povos indígenas e projetos baseados na natureza. Especialistas afirmam que é preciso apresentar regras claras para uso dos recursos e mecanismos de rastreamento, evitando greenwashing.
Transição energética e influência dos fósseis
Apesar do avanço das renováveis, compromissos formais ainda são insuficientes. O Brasil defende triplicar as fontes renováveis até 2030 e dobrar a eficiência energética, mas a proposta não foi oficializada. Não há cronograma para eliminar subsídios aos fósseis, cuja indústria exerce forte lobby, dificultando avanços na agenda climática. Segundo Natalie Unterstell, do Instituto Talanoa, as empresas fósseis influenciam políticas e resistem a mudanças estruturais.
Analistas consideram que a COP30 pode destravar investimentos para adaptação climática e validar indicadores globais para orientar políticas e atrair recursos. Juliana Lopes, da Coalizão Brasil Clima, destaca o lançamento da taxonomia sustentável brasileira para direcionar investimentos a atividades de impacto positivo.