Meio ambiente

COP17 de combate à desertificação abre na Mongólia sob pressão por financiamento

Promessa da COP16 cobre apenas 4% dos recursos necessários até 2030, enquanto Brasil leva Caatinga e Semiárido ao centro do debate.
Paisagem árida da Caatinga com emblema da ONU ao fundo, evocando o financiamento do combate à desertificação

A COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) começou nesta segunda-feira (17) em Ulaanbaatar, na Mongólia, e segue até 28 de agosto.

Sob o tema “Restaurando Terras. Restaurando Esperança”, 197 países discutem novas metas de financiamento para conter o avanço do solo estéril, fortalecer a resiliência à seca e garantir segurança alimentar global.

O encontro herda o fracasso da COP16, em Riad, que não converteu promessas em mecanismos práticos de combate à desertificação.

O fosso do financiamento

Em Riad, os países prometeram mobilizar mais de 12 bilhões de dólares até 2030 para combater a degradação do solo e mitigar os efeitos da seca, dos quais 10 bilhões viriam do Grupo de Coordenação Árabe. O problema é a escala: segundo a UNCCD, o volume necessário até o fim da década é de 300 bilhões de dólares — o que faz da promessa de Riad apenas 4% do total recomendado.

O impasse financeiro não é exclusivo da desertificação. Na COP30 do Clima, o mesmo embate entre países ricos e em desenvolvimento voltou a travar as negociações sobre o volume e a origem dos recursos. Já na COP16 de Biodiversidade, em Cali, a Convenção de Diversidade Biológica reconheceu um déficit de 700 bilhões de dólares, com Canadá e Reino Unido entre os maiores devedores.

Alertas científicos

Dados apresentados na conferência mostram que 77% da superfície terrestre livre de gelo está mais seca desde 1990, e a projeção é de que 5 bilhões de pessoas vivam em zonas áridas até 2100. Sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados por causa do uso insustentável da terra, e a agricultura responde por 23% das emissões globais de gases-estufa.

Metas nacionais na mesa

Nesta COP17, os 197 países-membros devem apresentar suas Metas de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN) — o equivalente, na agenda de desertificação, às Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) do Acordo de Paris. No Brasil, as duas metas se cruzam: o principal vetor de emissões do País é a mudança do uso do solo, ligada à expansão agropecuária e à degradação da terra.

Brasil leva o Semiárido para a mesa de negociação

O Semiárido brasileiro é a região árida mais populosa do planeta, e o País chega à COP17 representado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, pelo Consórcio Nordeste e pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). Levantamento recente aponta que 282 mil km² do território brasileiro já apresentam aridez permanente, concentrados em Bahia, Pernambuco, Paraíba e Piauí — dados que reforçam o papel estratégico do País nas negociações.

A delegação brasileira deve apresentar tecnologias de convivência com a seca, como cisternas, bioágua e barragens subterrâneas, além de defender o manejo sustentável da Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro. A meta é atrair investimento internacional para núcleos críticos de desertificação, como Gilbués (PI), Cabrobó (PE), Irauçuba (CE) e Seridó (RN-PB). O tema já havia ganhado força na COP30, quando especialistas alertaram para a aceleração da desertificação no semiárido e debateram políticas de manejo sustentável como resposta.