A 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) terminou neste 31 de agosto em Ulaanbaatar, na Mongólia, sem consenso sobre a criação de uma agenda formal de sinergia entre as convenções de clima, biodiversidade e uso da terra.
Representantes da diplomacia brasileira apontam que a resistência partiu de países desenvolvidos, com os Estados Unidos à frente dos bloqueios, que também travaram pautas de povos indígenas, gênero e participação da sociedade civil.
Apesar do impasse, o Brasil chegou fortalecido ao encontro: apresentou uma meta de recuperar 367 milhões de hectares degradados até 2030 e foi elogiado pela ONU por sua atuação conciliadora.
Financiamento é o principal obstáculo
Para o diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Alexandre Pires, a raiz do impasse está na distribuição desigual dos recursos globais. A maior parte do financiamento internacional é destinada à descarbonização e à transição energética, enquanto a biodiversidade recebe uma fatia menor e o combate à desertificação fica com a parcela mais reduzida de todas.
Criar uma agenda de sinergias significaria redistribuir esses recursos, o que gera resistência de países desenvolvidos a novos investimentos em restauração de terras e resiliência a secas. Quando a conferência abriu em Ulaanbaatar, essa pressão já era evidente: dos 300 bilhões de dólares necessários até 2030 para combater a desertificação, apenas 4% haviam sido comprometidos pelos países-membros.
Para o assessor do Itamaraty Paulo Cezar Rotella Braga, tratar clima, biodiversidade e desertificação de forma conjunta é prioridade do Brasil: “as três COPs são como três irmãs que cresceram separadas e agora precisam se reconectar”, afirmou.
Sem retrocessos, mas com avanço de última hora
Apesar do impasse nas sinergias, as decisões da COP16, realizada em Riad, foram mantidas para a próxima conferência, barrando tentativas de revogação por governos de posturas conservadoras. Um avanço inesperado também destravou o planejamento pós-2030: a Rússia retirou o bloqueio que mantinha sobre o tema, permitindo que o grupo de trabalho intergovernamental siga refinando propostas de enfrentamento a secas extremas — fenômeno que já castiga anualmente ecossistemas como a Amazônia brasileira.
Protagonismo brasileiro e os próximos passos
O Brasil levou a Ulaanbaatar uma delegação de mais de 100 pessoas e apresentou a Meta de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN), que prevê evitar novos processos de degradação em 367 milhões de hectares até 2030, apoiada em iniciativas como o programa Recaatingamento no Semiárido. Segundo o ministro João Paulo Capobianco, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, se o país não cuidar de suas terras produtivas pode comprometer sua própria economia e a segurança alimentar de cerca de 190 nações que dependem das exportações agrícolas brasileiras.
A liderança do ministro, da secretária nacional Edel Moraes e da ministra das Relações Exteriores Carolina Hippolito Von Der Weid foi elogiada publicamente pelo secretariado da UNCCD pela busca de consensos construtivos.
O impasse sobre financiamento não é exclusividade da agenda de desertificação. Na COP30 do Clima, em Belém, o mesmo choque entre países ricos e nações em desenvolvimento travou as negociações sobre volume e origem dos recursos. Agora, as atenções se voltam ao Comitê de Revisão da Implementação da Convenção (Cric), que ocorrerá na Sérvia no próximo ano, e à COP18, marcada para 2028 no Egito.