Ciência

Poeira ultrafina detectada pelo Perseverance em Marte acende alerta para a saúde de astronautas

Partículas de 100 nanômetros, as menores já medidas no planeta, podem chegar aos pulmões e ao sangue e orientam a escolha de trajes
Astronauta da NASA diante de Marte: poeira ultrafina em Marte astronautas é risco à saúde

O rover Perseverance, da Nasa, registrou na Cratera Jezero as partículas de poeira mais finas já observadas em Marte. São grãos de poeira ultrafina com cerca de 100 nanômetros, aproximadamente 500 vezes mais finos que um fio de cabelo humano.

A descoberta foi descrita em estudo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Ela pesa sobre o planejamento das missões tripuladas que a agência pretende enviar ao planeta na década de 2030, já que partículas tão pequenas podem ser inaladas por astronautas.

Do pulmão à corrente sanguínea

Até agora, as medições da poeira marciana tinham chegado a partículas de cerca de 3 micrômetros. O Instrumento Planetário para Litoquímica de Raios X (PIXL), a bordo do Perseverance, foi além e identificou duas faixas menores: as ultrafinas, na casa dos 100 nanômetros, e as finas, com menos de 2,5 micrômetros, cerca de 30 vezes mais finas que um fio de cabelo.

Partículas nessa escala podem alcançar os pulmões, entrar na corrente sanguínea e, potencialmente, danificar órgãos vitais. Em declarações reproduzidas pelo g1, o cientista planetário Scott VanBommel, da Universidade de Washington em St. Louis, autor principal do estudo e membro da equipe científica do rover, ponderou que o tamanho menor “não torna necessariamente a poeira mais perigosa”. Segundo ele, porém, grãos menores penetram mais fundo no corpo e são mais difíceis de eliminar pelo organismo.

Teflon e Vectran sob teste

O rover carrega amostras de materiais candidatos a trajes espaciais, com cerca de 20 mm de lado, para observar como a poeira se comporta neles. A fibra sintética Vectran reteve partículas maiores, concentradas sobretudo na parte inferior da trama. Já o revestimento de Teflon acumulou menos poeira, mas mais fina. A diferença reflete as propriedades eletrostáticas de cada material, que favorecem a aderência de grãos de tamanhos distintos.

Além do risco à saúde, há a preocupação de que o ambiente marciano e as características físicas da poeira degradem, com o tempo, trajes e habitats.

Lição da Lua, desafio diferente

A Nasa conhece os efeitos da poeira desde as missões Apollo, entre 1969 e 1972. Na Lua, o material desgastou as camadas externas dos trajes, danificou vedações, riscou viseiras e pode ter sido associado a sintomas parecidos com os da febre do feno em alguns astronautas.

A poeira marciana, porém, exige outra abordagem. Segundo VanBommel, os grãos lunares, formados por impactos como os de micrometeoritos e sem vento ou atmosfera para desgastá-los, permanecem afiados e angulares, e a preocupação está na forma. Em Marte, o foco recai sobre a composição química e o tamanho das partículas, espalhadas por ventos diários, por redemoinhos conhecidos como “demônios de poeira” e por tempestades que podem atingir escala global.

Para o pesquisador, os dados vão orientar a escolha de materiais para trajes e habitats, os métodos de limpeza para partículas submicrométricas e as diretrizes da Nasa para riscos toxicológicos.

A poeira não é o único obstáculo no caminho dos astronautas: em agosto, a Nasa testou uma antena ultraleve para helicópteros que mapeiam o gelo raso de Marte, recurso considerado essencial para futuras expedições tripuladas.