O bordão-de-velho (Samanea tubulosa) é uma árvore nativa presente em quase todo o Brasil. Em sistemas que juntam gado e floresta, ela deixou o solo das pastagens mais saudável do que o eucalipto, segundo pesquisa da Embrapa com o Cena-USP.
Nas áreas com essa leguminosa, a terra guardou mais carbono e abrigou grupos de microrganismos mais estáveis e com mais espécies. Isso indica um solo de melhor qualidade biológica.
Os resultados vêm de um artigo na Revista Brasileira de Ciência do Solo e da tese de doutorado de Henrique Nery Cipriani, pesquisador da Embrapa Florestas.
Por que a leguminosa interessa ao pecuarista
A pesquisa avalia os sistemas silvipastoris, modelo em que árvores e pastagem dividem a mesma área. Para Cipriani, o bordão-de-velho já tinha boa fama nesse tipo de integração antes do estudo, porque reúne várias funções numa mesma planta.
“Ela já era considerada uma das melhores espécies de árvore para a integração com pastagens, pois além da sombra proporcionada ao gado, ela é capaz de fixar nitrogênio no solo e ainda produz frutos apreciados pelos animais”, afirma o pesquisador.
Há uma desvantagem: a madeira da espécie rende menos do que a do eucalipto, o que pesa contra ela na comparação comercial. Segundo Cipriani, porém, o conjunto de benefícios para o solo e para o rebanho torna a árvore uma opção atraente para quem cria gado.
Duas coletas, uma mesma direção
O trabalho faz parte de uma linha de pesquisa de Cipriani sobre a qualidade do solo em áreas que integram pecuária e floresta. O artigo Native tree species in silvopastoral system outperforms Eucalyptus in enhancing soil health analisa amostras coletadas em 2022. A tese de doutorado usa amostras de 2024. Segundo a Embrapa, os dois estudos se completam.
Nos dois casos, a comparação foi feita entre o bordão-de-velho e o eucalipto da espécie Eucalyptus pellita. A tese teve orientação da professora Tsai Siu Mui, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP, em Piracicaba (SP).
Uma árvore de muitos nomes
A Samanea tubulosa é nativa da América tropical e pertence à família Fabaceae, a mesma da soja e do feijão. Ela também aparece em outros países da América do Sul. No Brasil, há registros da espécie em Alagoas, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e Sergipe.
O nome muda de região para região: barba-de-velho, abobreira, farinha-seca, ingá-de-pobre, samaneiro, sete-cascas e árvore-da-chuva são alguns deles. A árvore chega a cerca de 28 metros de altura e tem copa larga e flores brancas, rosadas ou roxas. Suas raízes formam nódulos com bactérias do gênero Rhizobium. Os frutos são vagens que o gado procura, e ramos e frutos podem virar ração. A espécie também é usada no paisagismo e como madeira.
Para a orientadora Tsai Siu Mui, os resultados ajudam no debate sobre a sustentabilidade da agropecuária tropical. “Os resultados são promissores e reforçam o potencial da biodiversidade nativa para a ciclagem de nutrientes e o sequestro de carbono, abrindo novas perspectivas para o manejo desses sistemas no Brasil”, diz.
A ideia de combinar espécies para recuperar o solo já tinha dado resultado no Pará, onde o SAF Dendê aumentou em até 38% a produtividade por planta.