Um estudo publicado na revista Nature, com dados genéticos de 28.279 pessoas, identificou a proteína BACH2 como um “freio” da produção de hemoglobina fetal. O achado pode abrir caminho para novos tratamentos da anemia falciforme e da beta-talassemia.
Pesquisadoras da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) participaram do trabalho. Em células cultivadas em laboratório, reduzir a ação da proteína fez aumentar a produção de hemoglobina fetal, a forma que predomina durante a gestação.
Por que a hemoglobina fetal importa
A hemoglobina é a proteína dos glóbulos vermelhos que transporta oxigênio pelo corpo. Ao longo do desenvolvimento, a versão fetal é gradualmente substituída pela forma adulta.
Na anemia falciforme, uma alteração genética faz a hemoglobina adulta funcionar de modo anormal e deforma os glóbulos vermelhos. Na beta-talassemia, uma das partes dessa hemoglobina é produzida em quantidade reduzida ou nem chega a ser produzida. Nos dois casos, estimular a produção da forma fetal é uma estratégia de interesse terapêutico.
Ouvida pelo g1, a imunologista Ester Sabino, titular do Departamento de Patologia da FMUSP, explicou que já se sabe há muito tempo que quem tem níveis altos de hemoglobina fetal durante a vida uterina tende a ter um quadro de anemia falciforme mais brando.
Como a proteína foi identificada
A análise reuniu pessoas de diferentes ancestralidades e encontrou 91 associações genéticas independentes, distribuídas por 12 regiões do genoma. Em uma delas, os cientistas localizaram uma variante ligada a níveis mais altos de hemoglobina fetal e a uma expressão menor de BACH2.
A partir dessa pista, a equipe testou em laboratório se a proteína tinha papel direto no processo. A redução ou inibição da BACH2 aumentou a expressão da hemoglobina fetal, o que confirmou a relação apontada pelos dados genéticos.
Os experimentos também mostraram que a BACH2 limita a ativação promovida por outra proteína, a NRF2. Segundo os autores, essa interação é um mecanismo de regulação que pode ser explorado em pesquisas futuras.
Dois freios, efeito somado
O grupo também comparou a BACH2 com a BCL11A, outro regulador já conhecido da hemoglobina fetal e hoje alvo de estratégias terapêuticas. As duas proteínas atuam por mecanismos independentes.
Quando a ação das duas foi reduzida ao mesmo tempo, o aumento da hemoglobina fetal foi maior do que o obtido ao bloquear cada uma separadamente. Para os pesquisadores, isso indica que atacar diferentes vias de regulação pode ser uma alternativa para estudos voltados a elevar a produção da forma fetal.
Ainda longe dos pacientes
Os próprios autores pedem cautela. Os resultados vêm de experimentos com células e, segundo os pesquisadores, não demonstram por si só que a estratégia seja segura ou eficaz em pessoas. A abordagem ainda precisa avançar antes de ser considerada uma opção de tratamento.