Cinco das oito ecorregiões de recifes de corais avaliadas no Brasil foram classificadas como criticamente em perigo na primeira Lista Vermelha de Ecossistemas global dedicada a esses ambientes, lançada pela UICN na COP17 da biodiversidade, em Yerevan, na Armênia.
Estão na faixa mais grave de risco de colapso Parrachos, Atol das Rocas e Fernando de Noronha, Costa dos Corais, Baía de Todos os Santos e Baixo Sul e Abrolhos. O peso decisivo veio das projeções de aquecimento dos oceanos para os próximos 50 anos.
A classificação indica que esses recifes ainda têm corais vivos e funcionam como ecossistemas, mas precisam de proteção urgente.
Calor marinho define o rebaixamento
A avaliação da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) olhou para dois horizontes: as mudanças dos últimos 50 anos e o estresse térmico projetado para as próximas cinco décadas, em um cenário intermediário do IPCC.
Só pelo histórico, Parrachos, Costa dos Corais e Atol das Rocas e Fernando de Noronha já seriam criticamente em perigo; Baía de Todos os Santos e Baixo Sul e Abrolhos ficariam um degrau abaixo, Em Perigo. As projeções levaram as cinco ao nível crítico.
O documento aponta as ondas de calor marinhas como principal ameaça, com referência aos episódios de 2019/2020 e de 2024, que causaram branqueamento severo e mortalidade de espécies-chave. Esse branqueamento atingiu níveis históricos entre 2023 e 2025, com mais de 90% dos corais impactados em Fernando de Noronha e no litoral de Pernambuco.
Pressões locais agravam o quadro
Sobrepesca, desenvolvimento costeiro, turismo e aporte de sedimentos e nutrientes do continente pioram a qualidade da água e reduzem a capacidade de recuperação dos recifes. Somam-se exploração de petróleo e gás, mineração, navegação e espécies invasoras como o coral-sol e o peixe-leão.
“De modo geral, os recifes costeiros estão expostos a pressões cumulativas maiores do que os recifes situados mais longe da costa”, diz o texto.
Três áreas sem diagnóstico
Parcel de Manuel Luís, Costa Semiárida e Queimada Grande ficaram sem classificação por falta de dados, na categoria Dados Insuficientes. Para a analista de Conservação do WWF-Brasil Ana Lídia Gaspar, em fala reproduzida pela Agência Brasil, a lacuna não significa ausência de risco.
“A avaliação aponta a necessidade de ampliar o conhecimento sobre essas áreas para compreender melhor sua situação e orientar medidas de conservação”, afirmou.
Em declaração divulgada também pelo ((o))eco, a analista resumiu o resultado: três das ecorregiões já estavam em risco crítico pelo que aconteceu nos últimos 50 anos, e as projeções colocam outras duas no mesmo patamar. “Onde faltam dados, a falta de informação não pode ser lida como ausência de risco”, afirmou.
Quadro global e uso da lista
Os recifes brasileiros ocupam aproximadamente 1.100 km² e se estendem por quase 3 mil quilômetros da costa do Atlântico Sul. Representam cerca de 0,6% da extensão global desses ecossistemas, mas abrigam espécies endêmicas e formações singulares, como os chapeirões do Banco dos Abrolhos e os recifes oceânicos do Atol das Rocas e de Fernando de Noronha, segundo o ((o))eco.
No mundo, foram avaliadas 127 ecorregiões em mais de 80 países e territórios. Delas, 122, ou 96%, estão criticamente em perigo. Sem as projeções do IPCC, só com o histórico de 50 anos, 30 já estariam nessa categoria e 116 aparecem como ameaçadas. Entraram apenas recifes rasos e ensolarados, os fóticos.
Pouco mais de uma semana antes, um estudo na Nature mostrou que 44% das espécies de corais formadores de recifes estão ameaçadas, também pelo aquecimento dos oceanos.
A Lista Vermelha de Ecossistemas é uma das ferramentas de revisão do acordo de biodiversidade de Kunming-Montreal, de 2022, do qual o Brasil é signatário, e serve de referência para políticas nacionais de proteção.
Em setembro, WWF-Brasil e Fundação Grupo Boticário lançaram um projeto de R$ 17,86 milhões para restaurar recifes em quatro estados, com ações em Abrolhos.
A avaliação ressalva que medidas locais apenas complementam a ação climática: “Medidas locais não são capazes de impedir as ondas de calor marinhas, portanto, cortes rápidos nas emissões continuam sendo essenciais”.