Meio ambiente

Aquecimento até 2050 expõe todas as coníferas nativas do Brasil, inclusive a araucária

Espécies raras da Amazônia e do Cerrado são as mais vulneráveis e não têm montanha para onde fugir do calor
Floresta e cerrado do Brasil sob calor, ilustrando o risco das coníferas brasileiras mudanças climáticas

Todas as dez espécies de coníferas nativas do Brasil, incluindo a araucária, devem enfrentar por volta de 2050 um clima diferente do atual, mesmo no cenário mais otimista de emissões. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Oryx.

A pesquisa foi liderada por Ricardo Costa Manosso, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

As mais vulneráveis são espécies raras da Amazônia e do Cerrado. Em reportagem de Samanta do Carmo para a Mongabay, pesquisadores alertam que nem a araucária, com distribuição ampla, está a salvo das mudanças climáticas.

Raras e isoladas, as especialistas lideram o risco

O estudo dividiu as espécies em dois grupos. As três generalistas, a araucária, Podocarpus lambertii e Podocarpus sellowii, ocorrem em mais de uma grande região de vegetação. Como têm populações amplas e espalhadas, mostraram menor exposição proporcional.

As sete especialistas vivem restritas a um só domínio. Quatro delas estão no topo do risco: Retrophyllum piresii e Podocarpus acuminatus, na Amazônia, e Podocarpus barretoi e Podocarpus brasiliensis, no Cerrado. “Todas as espécies estão expostas à mudança climática, mas as que mais estão expostas são as de menor ocorrência”, explica o professor Marcos Bergmann Carlucci, da UFPR, orientador e coautor do estudo.

Sem dados, sem proteção

A Retrophyllum piresii está no grupo de exposição extrema, afetada por mudanças tanto de temperatura quanto de chuva. Todos os registros da espécie vêm de um único lugar, a Serra dos Pacaás Novos, em Rondônia. Ainda assim, ela é classificada como Dados Deficientes (DD) nas listas do CNCFlora e da IUCN.

Segundo Carlucci, esse rótulo deixa a espécie fora dos Planos de Ação Territoriais, que priorizam espécies criticamente em perigo fora de unidades de conservação. A Podocarpus acuminatus, também DD na lista nacional, está na mesma situação.

O limite da montanha

Diante do calor, a resposta natural das coníferas é subir para altitudes mais frias e úmidas. “Não haverá montanha para subir infinitamente”, diz Carlucci. Ele ressalta que essa dinâmica é uma hipótese tirada dos modelos e defende que as populações do topo das serras sejam monitoradas.

Como o estudo foi feito

A equipe cruzou registros de ocorrência das bases GBIF, speciesLink e Reflora com quatro variáveis climáticas, como a temperatura máxima do mês mais quente e a variação entre estações secas e chuvosas. Foram usados dois cenários do IPCC: o otimista SSP245 e o pessimista SSP585. A exposição mede quanto da área atual de cada espécie terá um clima diferente no futuro. Isso não significa, por si só, que a espécie vá desaparecer.

Por que a araucária não está a salvo

Por ter distribuição ampla, a araucária teve exposição baixa a muito baixa no estudo. Mesmo assim, a espécie já é classificada como em perigo na lista nacional e como criticamente em perigo pela IUCN, por causa da exploração histórica e da perda de floresta. No Paraná, maior produtor do país, a cadeia do pinhão movimenta cerca de R$ 25 milhões por ano, segundo o governo estadual.

“A exposição relativamente baixa atribuída à araucária nesse estudo não significa que a espécie esteja protegida das mudanças climáticas”, afirma Marcelo Scipioni, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que não participou da pesquisa.

Neusa Beatriz da Silva, da Universidade do Havaí, lembra que as sementes morrem quando a umidade cai abaixo de 40%. Por isso, não podem ser guardadas em bancos de sementes. Segundo ela, o calor fora de época pode fazer a planta masculina liberar o pólen antes da hora. Nesse caso, a queda na safra de pinhão só aparece dois anos depois.

O que pode ser feito

Para as espécies do Norte e do Centro-Oeste, Carlucci defende uma política pública urgente baseada no princípio da precaução. Scipioni cobra testes de longo prazo de migração assistida, que leva mudas para áreas onde o clima futuro deve ser favorável. Para as sementes que não suportam secar, proteger a floresta em pé continua sendo a principal ferramenta.