Quase metade dos corais que constroem recifes no planeta corre risco de desaparecer. Das 774 espécies com dados suficientes, 340 (44%) foram classificadas como ameaçadas de extinção, segundo estudo publicado na revista Nature.
É a maior avaliação global já feita sobre esse grupo de animais. O principal fator de risco é o aquecimento dos oceanos causado pela mudança climática. No Brasil, o alerta recai sobre o Nordeste, que abriga corais que não existem em nenhum outro lugar.
Cenário pior que em 2008
O levantamento analisou 892 espécies de corais construtores de recifes. Entre as ameaçadas, 33 estão criticamente ameaçadas, 251 ameaçadas e 56 vulneráveis. Na primeira avaliação global, feita em 2008, cerca de um terço dos corais aparecia nesses grupos.
A mudança climática foi determinante para classificar mais de 90% das espécies nas categorias de maior risco. O calor favorece o branqueamento: o coral expulsa as algas microscópicas que vivem em seus tecidos e lhe fornecem grande parte da energia. Se a temperatura alta persiste, o animal pode morrer.
Para chegar ao resultado, os autores cruzaram dados de perda de cobertura de corais, projeções de branqueamento e características que tornam certas espécies mais frágeis. David Obura, um dos principais autores e copresidente do grupo de especialistas em corais da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), afirma que os números são um sinal claro de que as ameaças estão se intensificando.
Dados não incluem o calor recorde recente
Os próprios pesquisadores avisam que a realidade deve ser ainda mais grave. A base de dados vai até 2020 e não incorpora plenamente os anos excepcionalmente quentes de 2023 a 2025 nem o quarto evento global de branqueamento de corais. O estudo não estima qual seria a porcentagem atualizada de espécies ameaçadas.
O branqueamento atingiu níveis históricos nesse período, com mais de 90% dos corais impactados em Fernando de Noronha e no litoral de Pernambuco.
Nordeste brasileiro na zona de maior risco
No Atlântico, metade das espécies avaliadas está ameaçada, proporção acima dos 43% registrados no Indo-Pacífico. No Atlântico Sudoeste, o risco é considerado particularmente alto, sobretudo no Nordeste do Brasil, região de espécies com distribuição restrita e com o maior nível de endemismo do Atlântico.
Como poucas espécies cumprem funções semelhantes ali, a perda de uma delas pode ter efeito desproporcional sobre a estrutura do recife e sobre os organismos que dependem dele. Segundo a reportagem do g1, episódios severos de branqueamento e mortalidade foram registrados em uma extensa faixa da costa brasileira durante o quarto evento global.
Recifes aparentemente estáveis podem esconder perdas
Os Acroporidae, corais ramificados que ajudam a erguer a estrutura dos recifes, estão entre os mais pressionados: 68% das espécies dessa família avaliadas no Indo-Pacífico foram classificadas como ameaçadas. No Atlântico, Acropora cervicornis e Acropora palmata tiveram quedas populacionais superiores a 80%.
Os autores alertam ainda para um efeito pouco visível: um recife pode manter a cobertura estável depois de perder espécies sensíveis, substituídas por outras mais resistentes. O resultado é um ambiente menos diverso e estruturalmente mais simples.
Iniciativas de recuperação já estão em curso na região: em setembro, WWF-Brasil e Fundação Grupo Boticário lançaram um projeto de R$ 17,86 milhões para restaurar recifes de coral em Pernambuco, Bahia, Ceará e Alagoas.