Cientistas descreveram três novas espécies de peixes das nuvens encontradas em poças temporárias do Cerrado, em Paracatu, no noroeste de Minas Gerais. Os animais acabam de ser apresentados à ciência e já correm risco de extinção, porque os lugares onde vivem estão sendo destruídos.
As espécies Hypsolebias rosai, Hypsolebias baptistai e Hypsolebias maylermartinsi foram descritas em artigo de acesso aberto na revista Neotropical Ichthyology. O texto recomenda classificar as três como Criticamente em Perigo, pelos critérios da IUCN.
O avanço da soja e da pecuária sobre as poças é a principal ameaça apontada pelos pesquisadores.
Cada espécie vive em um único lugar
Os exemplares foram coletados em março de 2023 na região do alto rio Paracatu, afluente do rio São Francisco. Cada uma das três espécies é conhecida em uma única localidade, e todos esses ambientes já mostram sinais de degradação.
Onde vivem H. rosai e H. baptistai, os pesquisadores registraram partes das poças aterradas para ampliar o plantio de soja, além da drenagem de áreas alagadas. No habitat de H. maylermartinsi, foram encontrados erosão, assoreamento e mudanças na poça para guardar água para o gado.
O estrago atinge os peixes adultos e também os ovos enterrados no solo, o que compromete as gerações seguintes.
O alerta do artigo
“A rápida degradação ambiental causada pela expansão agrícola no noroeste de Minas Gerais (bioma do Cerrado) ameaça a sobrevivência dessas populações endêmicas antes mesmo que sua biologia seja totalmente compreendida”, escrevem os autores.
Eles defendem que as áreas úmidas temporárias do Cerrado sejam protegidas com urgência. Segundo o artigo, esses ambientes costumam ficar de fora das estratégias de conservação.
Homenagem a Guimarães Rosa
As três espécies pertencem ao gênero Hypsolebias. Os cientistas as diferenciaram pelas características físicas, principalmente pela coloração dos machos, que têm tons dourados, manchas escuras e detalhes azul-esverdeados.
H. rosai leva o nome do escritor João Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: Veredas, romance que se passa na região. As outras duas homenageiam o ambientalista Arsênio Caldeira Baptista Junior e o biólogo Mayler Martins.
Como vivem os peixes que “caem das nuvens”
Os peixes das nuvens, também chamados de peixes anuais, vivem apenas alguns meses em poças e lagos que se formam com as chuvas e podem secar por completo na estiagem. Antes disso, depositam os ovos no fundo.
Quando a água evapora, os adultos morrem, mas os embriões ficam protegidos no solo, em dormência. Com as chuvas seguintes, os ovos eclodem e uma nova geração ocupa as poças. Para quem observa, é como se os peixes surgissem do nada, trazidos pela água das nuvens, e daí vem o nome popular.
Pesquisa parada por anos
Para os cientistas, a falta de estudos sobre ambientes aquáticos temporários ajuda a explicar por que essas espécies ficaram desconhecidas por tanto tempo. Os levantamentos na região estavam praticamente parados desde 2006 e foram retomados nos últimos três anos.
Os próximos passos, segundo os autores, incluem análises genéticas e “estratégias de conservação urgentes e direcionadas” para proteger esses habitats.
Esse não é um caso isolado. Pouco mais de um mês antes, outra espécie de peixe das nuvens havia sido descrita no Amapá, também já ameaçada pelo desmatamento e pela expansão urbana.