Meio ambiente

Novo peixe das nuvens é descoberto no Amapá já ameaçado de extinção

Espécie de apenas 3 cm vive em área minúscula na Amazônia, cercada por desmatamento, garimpo e expansão urbana
Vista aérea da Amazônia representa o habitat do peixe das nuvens ameaçado extinção no Amapá

Uma nova espécie de peixe das nuvens, batizada de Laimosemion laranja, foi descrita por cientistas em artigo publicado no fim de agosto de 2026 na revista Zoosystematics and Evolution. O peixinho de menos de 3 centímetros vive na bacia do rio Cajari, no sul do Amapá.

Conhecida em apenas três localidades e com área de ocupação de só 12 km², a espécie já é considerada vulnerável à extinção: desmatamento, fogo, expansão urbana e mineração ameaçam seu habitat, mesmo perto de uma reserva extrativista.

Uma espécie minúscula com nome que remete às cores do pôr do sol

O nome científico Laimosemion laranja faz referência à coloração alaranjada e cintilante do peixe, identificada em exemplares coletados em expedições de campo realizadas em março de 2024 e junho de 2025, no município de Laranjal do Jari. Como ocorre com outros rivulídeos — grupo popularmente chamado de peixes das nuvens —, machos e fêmeas têm padrões de cor distintos: o macho tem pontos laranjas sobre fundo azulado e chega a 27,8 milímetros, enquanto a fêmea é predominantemente alaranjada, com nadadeiras amarelas, e não ultrapassa 20,6 milímetros.

A espécie vive em poças temporárias formadas próximas a igarapés e afluentes do rio Cajari, em trechos florestados com vegetação aquática flutuante, água limpa e fundo arenoso ou lodoso. Esse ciclo de vida sazonal, típico dos rivulídeos, torna a sobrevivência do peixe diretamente dependente da preservação desses pequenos ambientes alagados — hoje conhecidos em apenas três pontos, somando uma área de ocupação de 12 km², cerca de oito vezes o tamanho do Parque Ibirapuera, em São Paulo.

Ameaças reais mesmo dentro de área protegida

Nas três localidades onde o laranjinha foi registrado, os pesquisadores encontraram sinais de desmatamento — incluindo árvores queimadas — mesmo no ponto situado a poucos metros da Reserva Extrativista do Rio Cajari, uma unidade de conservação. “Nosso estudo de campo indicou que os habitats de várias dessas espécies estão atualmente expostos a impactos antrópicos associados à expansão urbana, às atividades agrícolas e à mineração”, alertam os cientistas no artigo. Eles destacam que a contaminação por mercúrio de ecossistemas aquáticos já foi documentada em diferentes regiões do Amapá, inclusive em áreas legalmente protegidas.

Esse cenário levou os autores a recomendar que a espécie seja classificada como Em Perigo de extinção, além de sugerir novas expedições para confirmar sua distribuição e a ampliação da Reserva Extrativista do Rio Cajari, de modo a incluir ao menos um dos pontos onde o peixe é encontrado. O caso reforça um padrão observado em outros igarapés amazônicos: estudo publicado em 2025 já mostrava como mudanças climáticas e poluição por microplásticos degradam a biodiversidade aquática desses ambientes, ameaças que agora se somam ao desmatamento e à mineração no entorno do rio Cajari.

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