Meio ambiente

Câmeras registram onça-pintada em 25 locais e guiam corredores ecológicos no Cerrado goiano

Projeto da Funatura une monitoramento e agroflorestas em assentamentos, mas enfrenta seca, furto de equipamentos e hostilidade de fazendeiros
Onça-pintada em rio sobre paisagem do Cerrado, simbolizando onça-pintada corredores ecológicos Cerrado

O projeto “Onde a onça bebe água”, da Funatura, encontrou sinais da onça-pintada em 25 localidades do nordeste de Goiás em 2025, seu primeiro ano de monitoramento. Os registros orientam o traçado de corredores ecológicos entre parques nacionais do Cerrado.

A reportagem de Marcio Isensee e Sá para o ((o))eco acompanhou a equipe em campo. O objetivo do projeto é entender como o maior felino das Américas se desloca em um bioma fragmentado pelo avanço do agronegócio.

Rotas entre três parques nacionais

O projeto é coordenado pela ecóloga colombiana Samantha Rincón. No início do trabalho, a equipe modelou por geoprocessamento um corredor que liga o Parque Nacional de Brasília (DF), o da Chapada dos Veadeiros (GO) e o Grande Sertão Veredas (MG). Já se sabia que a onça vivia nessas áreas. Faltava descobrir por onde ela circula entre as unidades de conservação.

Em 2025, foram instaladas 76 armadilhas fotográficas em pontos estratégicos do corredor. A equipe também rastreou vestígios como pegadas, fezes, pelos e arranhões em árvores. O balanço preliminar soma 52 registros em câmeras e 17 por rastreamento. O método não permite estimar o tamanho da população, mas mostrou um mesmo indivíduo usando locais diferentes.

A base do trabalho fica em Mambaí, no Vão do Paranã, região que abriga o maior contínuo de Cerrado nativo preservado de Goiás.

Uma espécie guarda-chuva

A onça-pintada já perdeu quase 50% de sua área de distribuição original, que vai do sul dos Estados Unidos à Argentina. Em escala global, a IUCN a classifica como “Quase Ameaçada”. No Cerrado, na Caatinga e na Mata Atlântica, porém, a situação é bem mais grave. No Cerrado, as populações estão fragmentadas e isoladas.

A consultora ambiental Lauana Costa Nogueira, ex-servidora do ICMBio em Mambaí, explica que o predador de topo mantém o equilíbrio da região. “Sem a onça para regular a população de herbívoros, espécies como capivaras, catetos, queixadas e o exótico javaporco se multiplicam sem controle, causando prejuízos imensos às próprias lavouras agrícolas da região”, afirma.

Agroflorestas, seca e câmeras furtadas

Para ganhar a confiança de quem vive nas rotas do felino, o projeto implantou 46 Sistemas Agroflorestais (SAFs) em assentamentos da reforma agrária. Segundo o projeto, 37 deles já abastecem as famílias, e entre 3 e 6 venderam o excedente. No Assentamento Vale da Esperança, em Formosa (GO), Arnaldo Vieira da Costa cultiva mais de 40 espécies e vendeu abóbora e batata-doce ao PAA.

A falta de água é o maior limite. No assentamento Riachão, em Sítio D’Abadia, a agricultora Joana D’Arc Inácio Severino da Conceição conta que o rio que dá nome ao lugar está seco há seis meses. Um levantamento da iniciativa DoClima mostra que o município recebeu 977 mm de chuva em 2025, 41% abaixo da média.

Outro problema é o sumiço de equipamentos. Sete câmeras desapareceram no ano passado, cada uma avaliada em cerca de R$ 2.500, e a principal suspeita recai sobre caçadores. “Cada furto significa a perda de 2 a 3 meses de registros contínuos”, diz Samantha. A equipe também enfrentou hostilidade de proprietários rurais. Um fazendeiro chegou a dizer que preferia tratar com traficantes a tratar com ambientalistas.

O isolamento da espécie no Cerrado se soma a um alerta recente: mesmo em refúgios amazônicos como a RDS Mamirauá, a densidade de fêmeas de onça-pintada caiu 77% em 17 anos, segundo estudo feito com armadilhas fotográficas.

Os dados coletados devem embasar artigos científicos e propostas de ordenamento territorial, como a criação de RPPNs e mecanismos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).