Meio ambiente

Perereca-de-vidro inédita no Cerrado central tem só dois registros e já preocupa cientistas

Vitreorana micaelae vive em matas de galeria de Luziânia (GO), área pressionada por mineração, barragens e perda de hábitat
Mata de galeria e buritis do Cerrado, habitat da nova perereca-de-vidro no Cerrado, espécie com apenas dois registros

Encontrada em apenas dois pontos de Luziânia (GO), no entorno do Distrito Federal, a Vitreorana micaelae é a primeira perereca-de-vidro do gênero registrada na região central do Cerrado. A espécie chega à ciência já ameaçada por mineração, barragens e perda de hábitat.

A descrição da nova espécie foi publicada em setembro na revista científica ZooKeys por pesquisadores da PUC-GO, da UFG e da UnB. Os autores pedem que ela seja classificada como “Dados Insuficientes” pela IUCN.

Um anfíbio translúcido fora do lugar esperado

Com até 2,6 centímetros de comprimento, a nova perereca pertence a um grupo de anfíbios conhecido pela coloração esverdeada e pela pele fina e translúcida, que deixa ver os órgãos internos. Até agora, as espécies do gênero Vitreorana eram conhecidas sobretudo na Amazônia e na Mata Atlântica.

Para confirmar que se tratava de uma espécie nova, os cientistas analisaram características físicas, cantos e material genético, além de fazer observações de campo. Segundo eles, os resultados mostraram diferenças relevantes em relação às espécies aparentadas.

“O fato dessa espécie ser descoberta no Cerrado já a diferencia das outras espécies do gênero, geralmente encontradas na Amazônia e na Mata Atlântica”, afirma Reuber Brandão, professor da UnB e um dos autores do estudo. Ele acrescenta que as evidências morfológicas, bioacústicas e moleculares apontam “distância genética relevante” dos parentes mais próximos.

Matas de galeria sob pressão

A espécie vive em matas de galeria, formações florestais que acompanham rios e córregos e funcionam como corredores de biodiversidade em meio à vegetação mais aberta do Cerrado. A distribuição restrita a dois locais é o que mais preocupa os pesquisadores.

Entre as ameaças apontadas estão a destruição de hábitats, a instalação de barragens e hidrelétricas e a mineração. As mudanças climáticas também podem alterar o regime hídrico dos riachos e aumentar o risco de incêndios nesses ambientes. A descoberta ocorre em um bioma que perdeu 40 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2024, o que dá a medida da pressão sobre ambientes frágeis como esses.

Pesquisadores pedem mais ciência básica no bioma

Para os autores, a descoberta mostra o quanto a fauna do Cerrado ainda é pouco conhecida. “O Cerrado é um dos biomas mais ameaçados do mundo e ainda sabemos muito pouco sobre a sua fauna, especialmente aquela associada a ambientes florestais úmidos”, afirma Wilian Vaz, autor principal do estudo.

Brandão defende mais investimento público em ciência básica e em pesquisa colaborativa. Segundo ele, a cooperação entre universidades e centros de pesquisa amplia a capacidade de produzir conhecimento num cenário de perda acelerada da biodiversidade.

Próximos passos

Como ainda há pouca informação sobre o tamanho da população e sobre os efeitos das alterações ambientais, os autores recomendam a categoria Dados Insuficientes (Data Deficient) na lista da União Internacional para a Conservação da Natureza. Eles também defendem novos levantamentos em áreas pouco estudadas do Cerrado e da Mata Atlântica, para entender melhor a distribuição do gênero e procurar outras populações da espécie.

O Tropiquim já havia noticiado a espécie em setembro, quando a descrição foi publicada na ZooKeys, e mostrado como ela passou tanto tempo despercebida.