As 127 novas metas climáticas nacionais entregues à ONU devem reduzir as emissões globais em apenas 6% até 2035 em relação a 2019. Para segurar o aquecimento em 1,5°C, o corte teria de ser de cerca de 60%, segundo o IPCC.
A conta foi divulgada nesta terça-feira (27) pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Faltam menos de duas semanas para a COP31, marcada de 9 a 20 de novembro em Antália, na Turquia.
No ritmo dos compromissos atuais, a temperatura do planeta pode subir até 3,2°C até o fim do século.
O tamanho da lacuna
A análise reúne as NDCs apresentadas entre janeiro de 2024 e agosto de 2026 por 154 participantes do Acordo de Paris, incluindo a União Europeia e seus países-membros. Juntos, eles respondiam por cerca de 71% das emissões globais de 2019, sem contar desmatamento e mudanças no uso da terra.
Mesmo a meta menos ambiciosa do acordo, manter o aquecimento abaixo de 2°C, exigiria uma queda de aproximadamente 37%. Se todas as medidas previstas forem aplicadas, inclusive as que dependem de financiamento e apoio internacional, o corte chegaria a 9%. Sem esse apoio, ficaria em 3%.
O orçamento de carbono também está no limite. Os países devem lançar cerca de 368 bilhões de toneladas de CO₂ entre 2026 e 2035, quase o triplo do volume compatível com 1,5°C. A ONU alerta que essa cota pode se esgotar antes de 2030. Nesse caso, seria preciso remover grandes quantidades de CO₂ da atmosfera para tentar baixar a temperatura de novo.
Em junho, um estudo com mais de 70 pesquisadores já mostrava o aquecimento em 1,37°C e o orçamento de carbono para 1,5°C perto de se esgotar em cerca de três anos.
Dois cenários para 2100
Com base nas NDCs e nas hipóteses para as emissões depois de 2035, a estimativa é de aquecimento entre 2,1°C e 3,2°C até 2100. Se os países também cumprirem as promessas de zerar as emissões líquidas até meados do século, a faixa cai para 1,7°C a 2,3°C. Isso depende de cortes efetivos nas próximas décadas.
Há um sinal positivo: as emissões globais podem atingir o pico antes de 2030 e recuar depois, ficando entre 49,6 bilhões e 55,9 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2035. Mesmo assim, a queda não basta para evitar que o planeta ultrapasse 1,5°C.
Energia avança, dinheiro não acompanha
A ONU reconhece que as metas ficaram mais completas. A fatia de países com medidas para modernizar redes elétricas subiu de 51% para 70%, e a dos que preveem armazenamento de energia, de 33% para 56%. O metano aparece em 92% das NDCs, e florestas e uso da terra, em 90%. A NDC atual do Brasil prevê cortar 53% das emissões até 2030 e zerar as líquidas até 2050.
A adaptação entrou em 86% das metas, e 92% desses países citam perdas e danos, contra 56% antes. Mas 36 dos 41 planos de adaptação analisados entre países menos desenvolvidos e pequenos Estados insulares seguiam em fase inicial até outubro. Um segundo relatório, com 137 documentos, aponta avanço em 61 participantes e retrocesso ou resultados mistos em 27.
O investimento climático global chegou à média de US$ 1,9 trilhão por ano em 2023 e 2024, alta de 32%, mas só 9% (cerca de US$ 183 bilhões) foi para países em desenvolvimento. A adaptação recebeu US$ 63 bilhões anuais, queda de 20%. Os países ricos superaram a promessa de US$ 100 bilhões, com US$ 132,8 bilhões e US$ 136,7 bilhões, mas o prazo original era 2020. A Oxfam estima o esforço efetivo de 2024 entre US$ 32,7 bilhões e US$ 44,7 bilhões.
Seis dias antes, o Relatório sobre a Lacuna de Emissões do Pnuma já havia concluído que o planeta vai ultrapassar 1,5°C. Corte de emissões e financiamento aos mais vulneráveis devem dominar a mesa em Antália.