O planeta vai inevitavelmente ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento global fixado pelo Acordo de Paris, conclui o Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026, divulgado nesta quarta-feira (21) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Se forem mantidas apenas as políticas em vigor, a temperatura média pode subir 2,8°C até 2100. No G20, só seis países devem cumprir suas metas para 2030, e o Brasil não está entre eles.
Os cenários do Pnuma para o aquecimento
Mesmo que todos os países cumpram integralmente suas promessas climáticas, o aquecimento ainda chegaria a 2,6°C neste século, segundo a 17ª edição do relatório, que mede a distância entre o que os governos prometem e o que seria necessário.
O documento afirma que décadas de ação insuficiente tornaram inevitável superar 1,5°C, considerada a média de várias décadas. Isso não impede um retorno: com medidas mais duras, o aquecimento teria um pico de 1,7°C a 1,8°C por volta de 2050 e voltaria a 1,5°C até 2100.
Mesmo nesse cenário mais favorável, a chance de retorno é estimada em cerca de 50%. O caminho exigiria retirar da atmosfera cerca de 320 bilhões de toneladas de CO₂ ao longo do século, volume equivalente a oito anos das emissões globais de 2024. A remoção dependeria da recuperação de florestas e de tecnologias de captura de carbono, que ainda esbarram em obstáculos técnicos e econômicos.
Em junho, um estudo com mais de 70 pesquisadores já mostrava o aquecimento em 1,37°C e o orçamento de carbono para a meta de 1,5°C perto de se esgotar. O Pnuma agora trata a ultrapassagem como inevitável.
O relatório lembra que cada ano acima de 1,5°C eleva o risco de ondas de calor, secas, enchentes e incêndios florestais, além de danos que podem ser irreversíveis, como a perda de grandes massas de gelo e de recifes de coral.
Emissões estagnadas
Em 2025, as emissões globais somaram cerca de 58,4 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, praticamente o mesmo volume de 2024. A diferença está dentro da margem de incerteza, o que impede afirmar que a curva começou a cair. A queima de petróleo, carvão e gás continuou em alta, enquanto as emissões ligadas ao desmatamento e às queimadas recuaram.
Se todas as promessas atuais forem cumpridas, as emissões cairão só de 5% a 8% até 2030 e de 11% a 15% até 2035, em relação a 2025. Para alcançar o melhor cenário possível, segundo o Pnuma, seriam necessários cortes de 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, também em relação a 2025. Na mensagem que acompanhou o relatório, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que o mundo precisa cortar quase 6% ao ano até 2035 para reduzir a intensidade e a duração da ultrapassagem.
Às vésperas da COP31, a próxima rodada de negociações climáticas, que será realizada na Turquia, Guterres afirmou que não se deve desistir: “Ultrapassar a meta não significa desistir. Ainda podemos manter esse aumento o menor e mais curto possível”, disse, ao defender que as temperaturas voltem a ficar abaixo de 1,5°C até o fim do século.
Brasil fora da lista do G20
Entre os membros do G20, responsáveis por cerca de 76% das emissões mundiais, apenas China, Índia, Indonésia, Rússia, África do Sul e Turquia foram avaliados como provavelmente capazes de cumprir as metas de 2030 com as políticas atuais. O Brasil ficou de fora.
Até setembro, 124 países e partes do Acordo de Paris haviam apresentado novas metas, que cobrem cerca de 76% das emissões globais, mas com efeito pequeno sobre as projeções de temperatura. O Acordo de Paris prevê que cada país atualize periodicamente suas metas (NDCs), um mecanismo que o Pnuma considera insuficiente até aqui. As projeções também pioraram em relação às do ano passado, sobretudo por causa da saída dos Estados Unidos do acordo e de revisões nos cálculos das emissões históricas.
Renováveis avançam acima do previsto
Há sinais positivos. Desde 2015, a capacidade global de geração renovável cresceu três vezes mais rápido do que se previa, e a da energia solar, sete vezes. Em mais de 220 avaliações de políticas climáticas, as medidas do setor elétrico reduziram as emissões em média 9%.
O relatório defende acelerar a substituição dos combustíveis fósseis, ampliar as renováveis, reduzir as emissões de metano e combater o desmatamento. Sem isso, o pico de 1,7°C a 1,8°C pode sair de alcance: cada cinco anos de emissões de CO₂ no nível atual somam cerca de 0,1°C ao pico previsto.
El Niño pode agravar o quadro
No mesmo dia, a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, Celeste Saulo, afirmou que o El Niño pode ter intensidade sem precedentes e superar os padrões observados nas últimas quatro décadas, segundo a Agência Brasil. De acordo com ela, o fenômeno deve levar ondas de calor a algumas regiões e alterar o regime de chuvas, provocando seca severa em umas e inundações em outras.