A liderança de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno chegou ao mercado antes de o Brasil acordar. Na abertura da bolsa de Tóquio, o ETF Nomura NF Ibovespa Link — fundo japonês que replica o Ibovespa — subia 9,40%, cotado a 322 ienes.
O preço foi registrado às 9h45 de segunda-feira no Japão, equivalente a 21h45 de domingo em Brasília, e deu a primeira leitura financeira do resultado das urnas.
Por que um fundo em ienes reagiu ao voto brasileiro
ETFs são fundos negociados em bolsa como se fossem ações. O Nomura NF Ibovespa Link funciona como um atalho: o investidor japonês compra uma cota em ienes e, na prática, carrega uma cesta de papéis brasileiros.
É isso que transforma o fundo em termômetro fora de hora. Com a bolsa paulista fechada no domingo, foi em Tóquio que o dinheiro estrangeiro pôde se mexer primeiro, e o salto de quase 10% apareceu antes da abertura dos negócios no Brasil, conforme o acompanhamento do g1.
A reação não ficou restrita à Ásia. Nos Estados Unidos, o EWZ, fundo negociado em Nova York que acompanha ações de empresas brasileiras, chegou a disparar 9,98% no after-hours — pregão que segue o fechamento regular da bolsa americana — neste domingo (4), segundo apuração do g1. Por volta das 23h50, pelo horário de Brasília, o fundo era negociado a US$ 42, ante US$ 38,19 no fechamento do pregão regular de Nova York, quando já havia avançado 2,83% ao longo da sessão. Os dois movimentos, no Japão e nos EUA, anteciparam parte das expectativas para a abertura dos mercados no Brasil nesta segunda-feira (5).
A leitura por trás da alta é direta: investidores passaram a atribuir mais chances à oposição na corrida presidencial e, com isso, a precificar uma eventual mudança na política econômica, com peso maior no ajuste fiscal. No cenário desenhado por analistas, a sequência esperada é valorização das ações, dólar em queda e recuo dos juros futuros.
Em entrevista ao g1, o economista Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, avalia que “o movimento mais visível provavelmente apareceria primeiro na bolsa, com uma alta relevante do Ibovespa e maior sensibilidade das estatais, especialmente Petrobras e Banco do Brasil”, mas pondera que a mudança mais importante estaria na curva de juros. Já Felipe Balassiano, chefe de multimercados do ASA, disse ao g1 que os possíveis cenários de transferência de votos tornam mais difícil uma vitória de Lula no segundo turno. Na mesma linha, Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, disse ao Poder360 que a alta reflete a expectativa de um novo arcabouço fiscal caso Flávio Bolsonaro assuma, citando como sinalização de equipe econômica nomes como a ex-presidente da Caixa Daniella Marques e o ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida. Gustavo Bertotti, head de renda variável da Fami Capital, apontou ao mesmo veículo o otimismo do mercado com uma eventual responsabilidade fiscal capaz de abrir caminho para juros menores e para uma retomada de aberturas de capital, os IPOs.
Quem pesa na cesta do fundo
A carteira espelha o Ibovespa, o que ajuda a explicar o tamanho da reação. A Vale é a maior posição, com 11,8%, seguida por Itaú Unibanco (8,5%), Petrobras PN (6,1%), Petrobras ON (4,4%) e Bradesco (4%). Axia, B3, Sabesp, BTG Pactual e Itaúsa completam o grupo dos dez principais ativos.
Uma disputa que o mercado já vinha medindo
A alta em Tóquio não nasceu do nada. A ascensão de Flávio Bolsonaro já era captada pelas pesquisas em março, quando o Datafolha registrou a vantagem de Lula encurtar de 15 para 3 pontos em menos de noventa dias. No mesmo mês, a Quaest apontava empate técnico entre os dois em cinco dos sete cenários de primeiro turno testados.
O resultado oficial do primeiro turno, com 99,94% das urnas apuradas, confirmou a vantagem de Flávio Bolsonaro: 47,04% dos votos válidos, contra 45,15% de Lula. Mais de 158 milhões de brasileiros estavam aptos a votar na eleição, e quase 1 milhão de eleitores participou da votação no exterior. Os dois vão ao segundo turno em 25 de outubro.
O teste seguinte, aguardado desde a véspera, veio com a abertura do mercado em São Paulo nesta segunda (5): antes mesmo de o Ibovespa operar — a sessão começa às 10h —, o dólar já caía mais de 4%, cotado a R$ 4,9835 por volta das 9h10, com mínima de R$ 4,9755 no dia, segundo o g1. O movimento confirmou, na praça doméstica, a leitura que vinha sendo feita horas antes em Tóquio e Nova York.
Com a sessão em andamento, o próprio Ibovespa validou essa leitura: por volta das 10h19, o índice disparava 7,98%, a 207.437,45 pontos, superando a marca de 200 mil. A alta ganhou ainda mais força na meia hora seguinte: segundo a Gazeta do Povo, o índice chegou à máxima de 8,91%, a 209 mil pontos, recorde de negociação na sessão, com R$ 5,7 bilhões movimentados antes das 11h. A economista Tatiana Goes, CEO da GoesInvest, disse ao Poder360 que o mercado passou a enxergar uma possibilidade maior de alternância de poder e de uma agenda econômica com maior ênfase em disciplina fiscal, controle de gastos, reformas e ambiente favorável ao investimento privado, o que reduz o prêmio de risco exigido para investir no Brasil — mas ponderou que a tendência até o segundo turno é de volatilidade elevada, já que pesquisas eleitorais, apoios políticos e sinalizações sobre a futura equipe econômica podem provocar novos movimentos no dólar, na Bolsa e nos juros.