Meio ambiente

Drones dispersam 134 milhões de sementes e recuperam encostas em São Sebastião

Três anos após a chuva de 683 mm que matou 64 pessoas, mais de 80% das encostas atingidas já têm cobertura florestal
Restauração de encostas com drones: vista aérea da Mata Atlântica com cobertura florestal contínua sobre as montanhas

Três anos depois do desastre que matou 64 pessoas em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, as encostas que desabaram voltaram a ficar verdes.

A restauração foi conduzida do alto: drones dispersaram 134 milhões de sementes de espécies nativas sobre o solo exposto pelos deslizamentos. Mais de 80% das áreas atingidas já apresentam cobertura florestal.

O trabalho é do Instituto Conservação Costeira (ICC), responsável pelo projeto Restaura Litoral, agora em fase final.

A chuva que bateu o recorde nacional

Em fevereiro de 2023, São Sebastião registrou 683 milímetros de chuva em 24 horas — o maior volume já medido nesse intervalo no Brasil, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Inundações e deslizamentos deixaram 64 mortos e milhares de desabrigados.

“Já atuávamos naquela área há mais de dez anos e estudos demonstravam que a tragédia iria acontecer”, disse Fernanda Carbonelli, diretora executiva do ICC, em reportagem de Xavier Bartaburu para a Mongabay. “Entre os mortos estavam 23 crianças. Elas não tiveram chance de sobreviver por omissão de governos — municipal, estadual e federal —, que sabiam do risco.”

O rastro ambiental também foi severo: mais de 200 hectares de Mata Atlântica foram devastados, e os deslizamentos abriram 853 cicatrizes no terreno.

Acelerar o que a natureza faria sozinha

“Trabalhamos em um dos mais importantes contínuos florestais de Mata Atlântica do país. Sabíamos que a própria natureza promoveria a regeneração dessas áreas ao longo do tempo”, afirmou o engenheiro agrônomo Andre Motta Waetge, coordenador do Restaura Litoral. “A proposta não foi substituir esse processo natural, mas acelerá-lo.”

A pressa tem motivo técnico. Depois de um deslizamento, explica Waetge, a área fica ainda mais vulnerável à erosão por causa da exposição do solo e da perda da cobertura vegetal — daí a necessidade de “ajudar” a floresta a se recompor o quanto antes.

As sementes chegaram às encostas em biocápsulas lançadas pelos drones. A escolha das espécies também pesa no resultado de longo prazo: um levantamento do Redário mapeou 48 zonas de transferência de sementes para orientar projetos de restauração diante do clima das próximas décadas.

Quase 18 mil áreas de risco esperando resposta

Premiado no Brasil e no exterior, o Restaura Litoral desponta como modelo possível para outros municípios e estados. A escala do problema justifica o interesse: o Serviço Geológico do Brasil (SGB) contabiliza quase 18 mil áreas de risco no país, onde vivem 4,6 milhões de brasileiros.

Replicar a receita, porém, exige mais do que semear. Julio Pedrassoli, professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador de mapeamento urbano do MapBiomas, pondera que o plantio de árvores precisa vir associado à recuperação da drenagem, ao controle da erosão e, quando necessário, a intervenções de engenharia e medidas de ordenamento territorial.

O risco muda com o clima — e com a renda

O alerta ganha peso em um cenário de clima em transformação. As mudanças climáticas “podem alterar o regime de chuvas e aumentar a ocorrência de eventos extremos em algumas regiões”, afirmou Pedrassoli.

E há um componente que nenhum drone resolve. “No caso das cidades brasileiras, existe ainda uma dimensão social importante porque populações de menor renda frequentemente acabam ocupando terrenos mais suscetíveis a riscos”, disse o professor. Em São Sebastião, a floresta voltou às encostas; a ocupação de áreas vulneráveis segue em aberto.