Meio ambiente

Reservatórios enfrentam seca prolongada e modelo defasado eleva custo da energia

Mudanças climáticas expõem falhas em previsões e pressionam sistema elétrico brasileiro há uma década

Nos últimos dez anos, as principais bacias hidrográficas do Brasil passaram mais tempo sob seca do que em períodos de cheia, evidenciando um ponto cego no sistema elétrico nacional.

O modelo de previsão dos reservatórios, sem atualização há décadas, não considera as mudanças climáticas, agravando a vulnerabilidade energética e elevando o custo da conta de luz.

Especialistas alertam para a necessidade urgente de adaptação e revisão dos métodos de planejamento diante do novo padrão climático.

Secas persistentes e padrões alterados nas bacias

Desde 2014, gráficos de monitoramento revelam que bacias de Norte a Sul do país enfrentam secas prolongadas, rompendo o antigo ciclo de alternância entre cheias e estiagens. O reservatório de Serra da Mesa, em Goiás, por exemplo, registrou sete anos consecutivos de seca após 2013, superando marcas históricas. Furnas, fundamental para o Sudeste e Centro-Oeste, também passou por sete anos de estiagem após 2015, com apenas breves intervalos de cheia. Três Marias seguiu padrão semelhante, com eventos extremos de chuva seguidos por estiagens prolongadas. Segundo Adriana Cuartas, pesquisadora do Cemaden, desde a crise de 2015 as bacias não retornaram ao ciclo normal, indicando um novo normal climático no país.

Modelos defasados e riscos para o setor elétrico

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) utiliza modelos baseados em dados históricos desde 1930, que não incorporam as mudanças climáticas recentes. Isso resulta em previsões otimistas e decisões que podem comprometer a segurança energética. Luiz Barata, ex-diretor do ONS, tentou modernizar os modelos sem sucesso, enfrentando resistência institucional. Jerson Kelman, ex-diretor da Aneel e pesquisador do Cepel, reforça a necessidade de atualização diante da frequência e intensidade dos eventos extremos. O modelo atual pode levar ao uso excessivo da água armazenada, gerando racionamentos e encarecendo a energia.

Desafios para adaptação e resposta institucional

O ONS reconhece que suas projeções de até cinco anos não consideram cenários climáticos do IPCC, limitando-se a dados históricos e previsões de curto prazo. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) afirma acompanhar o tema e elabora documentos técnicos, como o “Roadmap para o Fortalecimento da Resiliência do Setor Elétrico em Resposta às Mudanças Climáticas”.

Especialistas como Clauber Leite, do Instituto E +, e Ildo Sauer, da USP, alertam que o país vive sob constante risco de crise desde 2014 devido à forma como o sistema opera. Barata destaca que medidas corretivas são tomadas apenas quando o problema já está instalado, tornando a energia mais cara. Kelman observa que falhas nos modelos impactam não só a geração, mas também o preço da energia e relações comerciais bilionárias no setor.

O novo normal climático e seus impactos

Adriana Cuartas e Carlos Nobre apontam que o Brasil já enfrenta um novo normal climático, resultado do desmatamento e do aquecimento global, com menos chuva e temperaturas mais altas. Marcelo Seluchi, do Cemaden, ressalta o papel do aquecimento dos oceanos, como o El Niño, na intensificação das secas. O consenso entre especialistas é que a adaptação do sistema é urgente para evitar vulnerabilidades futuras e garantir a segurança energética.

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