Meio ambiente

Estudo mapeia como áreas verdes de Curitiba e Araucária freiam enchentes e guardam carbono

Levantamento em 6,2 mil hectares estima recarga de 3,7 bilhões de metros cúbicos de água por ano na bacia do Alto Iguaçu
Áreas verdes contra enchentes urbanas: araucárias refletidas em lagoa e parque aéreo representam recarga de água e carbono

Um estudo na Região Metropolitana de Curitiba colocou números em algo que o planejamento urbano brasileiro costuma tratar como detalhe paisagístico: o quanto a vegetação preservada protege as cidades de chuvas extremas.

O levantamento do Observatório Climático do Alto Iguaçu, projeto da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), analisou 6,2 mil hectares entre Curitiba e Araucária, no Paraná, onde vivem mais de 100 mil pessoas.

O que a vegetação devolve em água

Na bacia hidrográfica do Alto Iguaçu, a capacidade anual de recarga hídrica foi estimada em 3,7 bilhões de metros cúbicos. Nos municípios analisados diretamente, a contribuição chega a 142,4 milhões de metros cúbicos por ano em Araucária e a 32,7 milhões em Curitiba.

A lógica por trás dos números é simples: solo preservado infiltra, solo impermeabilizado escorre. Onde a água não entra no terreno, ela se acumula na superfície — e vira enchente. Áreas mais impermeabilizadas, aponta o estudo, são justamente as mais vulneráveis às chuvas intensas.

O achado dialoga com outro estudo recente que já mostrava como o desmatamento na Amazônia reduz o volume de chuvas na própria bacia do Rio Iguaçu, reforçando por que a vegetação preservada, dentro e fora das cidades, pesa no regime hídrico da região.

Carbono estocado nos fragmentos

As áreas inventariadas guardam cerca de 167,2 mil toneladas de carbono, equivalente a aproximadamente 613 mil toneladas de CO₂, com os maiores volumes registrados nos fragmentos maiores e mais conservados. É uma fração pequena diante do quadro nacional: as unidades de conservação do país guardam, juntas, carbono equivalente a 33 anos de emissões brasileiras.

Para chegar aos resultados, como mostrou o ((o))eco, a equipe aplicou a metodologia internacional InVEST sobre um banco com cerca de 115 estudos científicos, documentos técnicos e políticas públicas, avaliando três serviços ecossistêmicos: recarga hídrica, mitigação de enchentes e armazenamento de carbono.

Uma metrópole desigual também em proteção climática

Os serviços não estão distribuídos por igual. Remanescentes de vegetação no bairro de Campo de Santana, em Curitiba, e em áreas rurais de Araucária apresentaram a maior capacidade de infiltração de água e de armazenamento de carbono.

Já os bairros mais urbanizados, com solo impermeabilizado, registraram a maior vulnerabilidade aos efeitos das chuvas intensas — o que coloca a proteção desses fragmentos restantes como uma questão de segurança urbana, e não apenas de conservação ambiental.

Dos dados ao plano diretor

Os estudos já foram entregues às prefeituras de Curitiba e Araucária. A próxima etapa prevê a capacitação de servidores públicos, lideranças comunitárias e jovens lideranças climáticas, além da elaboração de propostas para incorporar os resultados ao planejamento urbano. A expectativa é que, a partir de 2027, os dados orientem decisões sobre uso do solo, conservação de áreas naturais e adaptação às mudanças climáticas.

O movimento não é isolado: outras metrópoles brasileiras também vêm mapeando sua vegetação nativa para fortalecer a resiliência urbana, caso de São Paulo, onde um estudo recente identificou quais árvores da Mata Atlântica resistem melhor à poluição do ar.