A transferência de nove micos-leões-pretos para um fragmento florestal no Pontal do Paranapanema, no oeste de São Paulo, levou à formação de novos grupos com animais de origens diferentes. A população local tem menos de 18 indivíduos e encolhe há pelo menos dez anos.
Os resultados saíram em setembro na revista científica Global Ecology and Conservation. O estudo acompanha duas solturas, feitas em 2024 e 2025, com animais vindos do Parque Estadual Morro do Diabo.
Por que levar micos de uma mata para outra
O Morro do Diabo concentra cerca de 1.200 micos-leões-pretos (Leontopithecus chrysopygus). O fragmento que recebeu os animais tem 500 hectares e fica a 30 quilômetros do parque. Com tão poucos indivíduos, a população residente corria o risco de desaparecer.
A transferência tinha dois objetivos: aumentar o número de animais e favorecer a troca genética entre grupos isolados. Os pesquisadores também se preocupam com características genéticas únicas identificadas nessa população, que se perderiam se ela fosse extinta.
Morte de fêmea dominante reorganizou os grupos
Poucos dias depois da soltura do segundo grupo, uma fêmea dominante foi encontrada morta. A causa não foi determinada. A perda provocou uma reorganização social entre os animais transferidos.
Nas avaliações seguintes, uma fêmea levada em 2025 formou casal com um macho que tinha chegado ao fragmento no ano anterior. Outro macho adulto passou a viver com duas fêmeas, uma delas da população residente. Para os autores, grupos que misturam animais de diferentes procedências podem contribuir para o fluxo gênico entre populações isoladas.
O acompanhamento combinou radiotelemetria, monitoramento acústico e recapturas dos indivíduos.
Corredores florestais são a aposta de longo prazo
Mesmo com os resultados, os pesquisadores tratam a translocação como medida emergencial. Para eles, a conservação da espécie a longo prazo depende da restauração florestal.
O projeto Corredores de Vida, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), já plantou mais de 14,2 milhões de mudas na região. A meta é ligar áreas como o Parque Estadual Morro do Diabo e a Estação Ecológica Mico-leão-preto, para que os animais possam circular entre elas.
Gabriela Rezende, coordenadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto e primeira autora do estudo, afirma que os corredores podem aumentar em mais de oito vezes o habitat disponível. “No entanto, até que essa conectividade seja restaurada, o reforço demográfico por meio de translocação constitui uma estratégia de curto prazo necessária para evitar o colapso demográfico”, diz. O programa liderado por ela recebeu em 2025 um aporte internacional de US$ 50 mil para financiar ações de monitoramento e translocação como as avaliadas agora.
Os autores recomendam acompanhar os animais por mais tempo que os 24 meses previstos, ou até que os grupos completem um ciclo reprodutivo com sucesso. Segundo eles, isso ajudaria a avaliar a adaptação dos micos e a orientar o manejo em outras áreas de floresta fragmentada.