Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, instalou oito novas pontes de dossel em agosto de 2026, elevando para 15 o número de passagens suspensas que conectam fragmentos florestais e evitam atropelamentos de primatas na área urbana do município.
A ampliação integra o programa Alta Floresta Não Atropela, iniciado em outubro de 2024 pelo Projeto Reconecta, que já soma mais de 15 mil travessias registradas por armadilhas fotográficas sem nenhum atropelamento de primata nos pontos monitorados.
A nova etapa contempla quatro vias da cidade com maior concentração histórica de registros de colisões com animais silvestres. Seis espécies de primatas amazônicos já usam as estruturas para atravessar entre fragmentos florestais, com destaque para o zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi), símbolo do município e ameaçado de extinção, e o macaco-aranha-da-cara-preta (Ateles chamek), que teve nas pontes seu primeiro registro no Brasil usando esse tipo de estrutura.
Reconhecimento nacional impulsiona expansão
“Os resultados mostram que as pontes não são apenas estruturas experimentais: elas são utilizadas diariamente pelos animais e oferecem uma alternativa segura para o deslocamento entre os fragmentos florestais”, afirma a bióloga Fernanda Abra, coordenadora do Projeto Reconecta. As primeiras sete pontes, instaladas em outubro de 2024, zeraram os atropelamentos de primatas nos trechos beneficiados de forma imediata — resultado que rendeu a Abra o Whitley Award 2024 e reconhecimento da National Geographic Society em junho deste ano.
A companhia elétrica Energisa também entra na segunda fase do programa, adequando a rede elétrica próxima aos pontos de travessia para reduzir o risco de choques nos animais. O modelo de ponte “3 em 1”, que atende desde o grande macaco-aranha até o pequeno sagui-de-schneider (Mico schneideri), passou a integrar as diretrizes técnicas nacionais do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) para mitigar impactos de rodovias sobre a fauna.
O desafio de proteger animais silvestres do tráfego não se limita aos centros urbanos amazônicos: em Mato Grosso do Sul, colisões com antas em rodovias já mataram 51 pessoas em 13 anos, um dado que reforça a urgência de soluções como as pontes de dossel testadas em Alta Floresta.
Primeiro censo de primatas de Alta Floresta
O próximo passo do Projeto Reconecta é realizar o primeiro censo de primatas da área urbana e periurbana de Alta Floresta, em parceria com a Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) e a Universidade Federal de Viçosa (UFV). O levantamento vai combinar trilhas de campo e drones termais em quatro fragmentos florestais do município: a Fazenda Anacã, a Reserva Surucuá, o Parque Zoobotânico Leopoldo Linhares Fernandes e a Floresta Experimental da UNEMAT.
“Mais do que produzir um retrato deste momento, queremos estabelecer uma linha de base científica e manter o monitoramento ao longo dos próximos anos. Pesquisas de longo prazo são essenciais para identificarmos mudanças populacionais, avaliarmos os efeitos da urbanização e das ações de conservação e orientarmos decisões mais eficazes”, explica Luan Goebel, pesquisador do Reconecta responsável pelo censo.
O programa também reforçou a comunicação com moradores: um outdoor em ponto estratégico da cidade destaca o número de travessias registradas, e outras 40 placas de sinalização alertam motoristas ao longo das vias urbanas de Alta Floresta.