Meio ambiente

Grupo de 15 a 25 espécies de árvores puxa a regeneração da Amazônia, aponta estudo

Pesquisa em 102 áreas do Pará mostra quais árvores priorizar para o Brasil restaurar 12 milhões de hectares até 2030
Vista aérea da floresta amazônica com rios, ilustrando estudo sobre espécies de árvores restauração Amazônia

Entre 15 e 25 espécies de árvores respondem por cerca de metade dos indivíduos e do carbono estocado nas florestas que voltam a crescer em áreas desmatadas da Amazônia. A conclusão é de um estudo publicado em junho na revista Global Change Biology, com base em 102 áreas de regeneração natural no Pará.

Para o coordenador da pesquisa, Fernando Elias, do Museu Paraense Emílio Goeldi, a lista curta pode orientar onde e como restaurar o bioma, como ele disse em entrevista à Mongabay Brasil, em reportagem de Xavier Bartaburu.

As árvores que puxam a regeneração

O levantamento cobriu quatro macrorregiões paraenses: Bragantina, Marabá, Paragominas e Santarém. Entre as espécies hiperdominantes estão a embaúba (Cecropia palmata), a tatapiririca (Tapirira guianensis), o ingá-vermelho (Inga alba) e o araticum-bravo (Annona exsucca).

Segundo os autores, esse grupo pode “orientar estratégias de restauração assistida e enriquecimento”. “Estas áreas já estão restaurando serviços [ecossistêmicos] e a biodiversidade”, afirmou Elias. “Por isso é tão importante a gente compreender como que essas florestas se comportam.”

O trabalho do pesquisador já havia sido destacado pelo Tropiquim em agosto, quando o estudo identificou 18 espécies que dominam a regeneração de áreas desmatadas e mostrou por que elas resistem ao sol pleno e ao solo degradado.

Floresta que volta sozinha, mas sob vigilância

De acordo com Elias, a Amazônia brasileira tem mais de 140 mil km² de florestas secundárias, muitas delas em antigas pastagens abandonadas. A maior parte pode se recuperar sem o plantio de uma única semente, desde que haja monitoramento contra incêndios, gado e grileiros.

“Você mantém o monitoramento para saber se a área está de fato numa trajetória de restauração ou se ela vai estabelecer uma cobertura de solo extremamente pobre em termos de diversidade”, disse Beto Mesquita, engenheiro florestal e diretor de paisagens sustentáveis da Conservação Internacional.

O limite das pioneiras

As primeiras árvores a ocupar a área, as pioneiras, suportam sol direto e crescem rápido, mas têm madeira leve e guardam pouco carbono. “Madeira forte demora para ser construída”, explicou Elias, cuja pesquisa teve apoio do Instituto Serrapilheira.

Essas espécies vivem de 15 a 20 anos. Se não houver árvores mais resistentes prontas para substituí-las, alerta Mesquita, a floresta pode regredir e interromper a restauração.

Meta nacional e corrida pelo carbono

Os pesquisadores afirmam que entender essa dinâmica ajuda o Brasil a cumprir a meta de restaurar 12 milhões de hectares até 2030, área próxima à da Coreia do Norte. O Planaveg prevê conceder terras públicas a empresas que restaurem a vegetação em troca da venda de créditos de carbono. O Pará se comprometeu a recuperar 7,41 milhões de hectares até 2036, segundo o estudo.

A pressão é grande: mesmo com o menor desmatamento anual em 40 anos, a Amazônia acumula perda de 54,7 milhões de hectares desde 1985, segundo o MapBiomas. Empresas como Mombak, re.green e Biomas já tocam grandes projetos no bioma.

Drones na Mata Atlântica

Em áreas muito degradadas, a natureza precisa de ajuda. Um estudo publicado em agosto na Ecological Engineering, com pesquisadores de universidades de São Paulo, Campinas e São Carlos e da re.green, mostrou que drones reduziram custos e ampliaram a eficácia da semeadura em duas áreas do sul da Bahia. Sementes em cápsulas de amido de mandioca germinaram antes, mas as mudas morreram mais.

Mesquita pondera que os estudos deveriam detalhar melhor as áreas analisadas: regenerar terra totalmente desmatada é diferente de recuperar floresta degradada por extração seletiva e fogo.