Meio ambiente

Fogo vindo de fazendas destrói 65% da Terra Indígena Maxakali, em Minas Gerais

Chamas consumiram 3.500 hectares, cortaram água e luz de aldeias e levaram o MP-MG a cobrar socorro emergencial da prefeitura de Bertópolis
Povos indígenas diante de mata em chamas: incêndio terra indígena Maxakali destruiu 65% do território em Minas Gerais

Dois focos de incêndio que avançaram a partir de fazendas vizinhas destruíram cerca de 3.500 hectares da Terra Indígena Maxakali, no Vale do Mucuri (MG), entre 7 e 15 de outubro. A área queimada equivale a 65% dos 5.300 hectares do território.

O fogo consumiu matas nativas, nascentes, roças de subsistência e áreas em recuperação florestal e interrompeu serviços essenciais para mais de 2,5 mil indígenas, segundo reportagem de Samanta do Carmo na Mongabay Brasil.

Aldeias sem água, luz e comunicação

O incêndio destruiu canos, fios e bombas que abasteciam as comunidades. Aldeias como Pradinho e Água Boa ficaram sem água, energia elétrica e meios de comunicação, e a fumaça densa provocou crises respiratórias entre os moradores.

Diante do cenário, o Ministério Público de Minas Gerais (MP-MG) expediu uma recomendação emergencial à prefeitura de Bertópolis, município onde fica parte da terra indígena. O órgão cobra o fornecimento imediato e contínuo de água potável, cestas básicas e atendimento de saúde às famílias atingidas, além da instalação de um gabinete de crise.

Combate noturno ficou com os indígenas

A linha de frente contra as chamas reuniu brigadistas locais, moradores e bombeiros de Teófilo Otoni (MG). Segundo os indígenas, porém, o esforço não era contínuo. “Quando ficava de noite, o pessoal, não indígena, do bombeiro e do Prevfogo ia embora e nós continuávamos tentando”, relatou Marilton Maxakali em entrevista por telefone, intermediada pela Teia dos Povos, organização que apoia as comunidades, já que as aldeias seguiam sem luz e internet.

De acordo com Rosangela Pereira de Tugny, coordenadora do Projeto Hãmhi – Terra Viva, outros 56 hectares de mata remanescente só escaparam do fogo graças a aceiros preventivos abertos antes da emergência.

Calor extremo e capim-colonião alimentam o fogo

O território está numa região apontada como um dos epicentros do aquecimento atmosférico no país. Tugny cita dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) que registram alta de 5 °C na temperatura local nos últimos anos.

Segundo a coordenadora, o avanço histórico do capim-colonião sobre a paisagem funciona como combustível para as queimadas. O avanço do fogo sobre territórios indígenas se soma a um cenário já alertado por estudo do IPAM, que apontou o manejo de incêndios e a cooperação com povos indígenas como frentes prioritárias para conter a degradação.

Reconstrução começa pelo plantio

Para Tugny, a prioridade é enfrentar a insegurança alimentar e recompor a infraestrutura. “O que a gente acha muito importante agora é investir no plantio de alimentos e no fortalecimento dos quintais florestais, além da aquisição de máquinas”, afirmou.

A comunidade aposta nos próprios agentes agroflorestais para replantar o que foi perdido. “Nós, povo Maxakali, já passamos por muita coisa ruim, mas não acaba. Nós, Maxakali morre e ressuscita”, disse Marilton. “Nós vamos ficar mais fortes ainda e vamos plantar tudo de novo.”