Meio ambiente

Municípios sem plano contra desastres climáticos passam de 30%, aponta estudo

Pesquisa com 2.289 prefeituras encontra Defesas Civis com um só agente e cidades sem alerta próprio, com o El Niño no horizonte
Agentes da Defesa Civil observam deslizamento, ilustrando municípios sem plano contra desastres e o risco do El Niño

Ao menos 30% dos municípios brasileiros não têm plano de contingência para desastres climáticos, e 37% não contam com sistema próprio de alerta. Os dados são de um estudo coordenado pelo Cemaden e publicado na revista Disaster Risk Science.

Para ondas de calor, o quadro é pior: menos de 8% das cidades têm algum plano. O número preocupa diante das projeções para o El Niño 2026-2027, que pode aquecer o Pacífico em mais de 3 °C no pico.

A pesquisa, financiada pela Fapesp, reuniu respostas de 2.289 prefeituras, 41% das 5.570 do país, a um questionário aplicado no ano passado.

Defesa Civil no limite

As equipes são o ponto mais crítico. O levantamento contou pouco mais de 13.500 agentes de Defesa Civil nos municípios participantes, distribuídos de forma desigual: 22% dos órgãos municipais funcionam com um único agente, 16% com dois e 35% com três a cinco.

A inexperiência agrava o problema. Um quarto dos respondentes disse atuar na área há menos de um ano.

“Infelizmente, o que ainda impera no Brasil é a cultura do improviso. Quando há uma emergência, um desastre, todo mundo se mobiliza. Mas essa mobilização não acontece antes para se preparar”, disse à Agência Fapesp o sociólogo Victor Marchezini, pesquisador do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) e coordenador do estudo.

Mapas de risco ainda faltam

A Lei Nacional de Proteção e Defesa Civil, de 2012, atribui às prefeituras a elaboração de mapas de risco, mas 25% das cidades pesquisadas não têm esse mapeamento. Ferramentas preventivas, como as cartas geotécnicas que indicam as áreas mais adequadas para construir, são usadas por apenas 14% delas.

Como o preparo foi medido

A metodologia, inédita, segue os parâmetros da iniciativa Early Warnings for All, criada pela ONU em 2022 para que todos os países tenham sistemas de alerta até o fim de 2027. Até agora, 119 países aderiram. Foram avaliados equipe e orçamento da Defesa Civil, mapeamento de risco, comunicação, participação social, governança e infraestrutura para prever o clima e monitorar chuvas em horizontes de até 30 dias.

A urgência aparece nos números do Atlas Digital de Desastres no Brasil: em 2024 e 2025, o país teve cerca de 8.900 registros de desastres, puxados por estiagens e secas (2.700) e chuvas intensas (2.400). Esses eventos afetaram ao menos 24,7 milhões de pessoas e deixaram mais de 1,5 milhão de desalojados e desabrigados.

Alertas informais e população distante

O estudo apontou uma contradição: 69% dos municípios classificam como alta ou média sua capacidade de avisar a população, mas só 32% dizem usar um sistema de alerta. Para os pesquisadores, isso indica o uso de canais informais, como redes sociais, grupos de WhatsApp e rádio, em vez dos oficiais.

O país tem uma ferramenta oficial, a Interface de Divulgação de Alertas Públicos, que permite às defesas civis enviar avisos por SMS e TV por assinatura. Ela foi reformulada neste ano depois de um ataque hacker. Mesmo onde os avisos chegam, a qualidade é um problema: só 1,83% das mensagens de desastre enviadas por SMS traziam todas as informações essenciais, segundo estudo da PUCPR.

A relação com os moradores também é frágil. Quase um quarto das prefeituras não adota nenhuma medida de apoio às famílias que vivem em áreas de maior risco, e só 6,4% relatam participação frequente da população em atividades de defesa civil.

Há também um gargalo financeiro: cidades suscetíveis a enchentes captaram 68% menos crédito per capita para prevenção, e a falta de equipe técnica aparece entre as causas.

Próximos passos

Marchezini defende tratar os alertas locais como política pública, com monitoramento, planejamento urbano e comunicação que inclua idosos, pessoas não alfabetizadas e pessoas com deficiência. O grupo vai agora detalhar os resultados por região e porte de município e discutir propostas com as prefeituras. A metodologia deve ser reaplicada para acompanhar os avanços.