As ondas de calor gigantes, capazes de cobrir ao menos 1% da superfície da Terra, passaram de cerca de 5 por ano na década de 1960 para aproximadamente 102 anuais nesta década, um salto de 20 vezes.
O dado vem de um levantamento da agência Reuters, publicado pelo g1, que batizou esses fenômenos de tempestades de calor e mostrou que o planeta não passa um dia sem ao menos uma delas ativa desde julho de 2008.
A análise cruzou temperaturas horárias desde 1960 em mais de 1 milhão de quadrículas do globo e ouviu duas dezenas de meteorologistas e pesquisadores do clima.
Como uma onda de calor vira tempestade
Não existe definição universal de onda de calor. O Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA fala em dois ou mais dias de calor anormal; as agências de Austrália, França, Espanha e Reino Unido adotam três dias, com critérios de temperatura que também variam.
Para comparar épocas e regiões, a Reuters fixou um padrão: cinco dias seguidos ou mais com máxima entre os 10% mais altos da série de 1961 a 1990 para aquele ponto e aquele dia do ano. Os dados são do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo.
O critério é relativo. Em julho, Istambul entra em onda de calor a partir de 25,6°C; Phoenix, no Arizona, só a partir de 40,3°C. Quando uma área contínua afetada alcança 1% do globo, cerca de metade do tamanho do Canadá, vira tempestade de calor e ganha nome, como os furacões.
Vera, a maior já registrada
A maior delas, chamada de Vera, durou 367 dias entre 2023 e 2024 e cobriu quase 85% do planeta, chegando às latitudes polares. A maior dos anos 1960 ocupou cerca de 6% do globo por 46 dias, sobre o Atlântico, partes da América Latina e da África Ocidental.
O rastro de Vera inclui mais de 1.300 peregrinos mortos no Hajj, com 51,8°C na Grande Mesquita de Meca; 38°C em escolas das Filipinas, em sua maioria sem ar-condicionado; e o ciclone que despejou chuva sobre a Líbia em 2023 e levou ao rompimento de duas barragens perto de Derna.
Na Louisiana, a seca e os incêndios agravados pelo calor geraram uma “superneblina” de fumaça que provocou um engavetamento de ao menos 158 carros e matou sete pessoas. Na Grécia, o maior incêndio já registrado na Europa matou imigrantes que cruzavam a floresta de Dadia.
Uma cascata sem pausa
Desde 6 de julho de 2008, as tempestades de calor se sucedem, se sobrepõem, se fundem e se separam sem interrupção: são 6.681 dias seguidos. Nos anos 1960, essas cascatas duravam em média dois meses. Entre 1960 e 2008, só cinco tempestades passaram de um décimo do planeta; na sequência atual, já são 56.
Uma delas trouxe o calor deste verão europeu, com 42,7°C em Bilbao em junho e mais de 10 mil mortes extras em uma semana, segundo governos da região. Os recordes no continente expuseram também o despreparo de cidades brasileiras diante do calor extremo.
No período, o CO2 na atmosfera subiu mais de 30%, e a fração do planeta sujeita a ondas e tempestades de calor cresceu mais de 12 vezes, com o El Niño como acelerador. Essas tempestades já respondem por quase 43% dos dias excepcionalmente quentes, ante 3% nos anos 1960. Um estudo publicado na Nature em 2025 ligou cerca de metade do agravamento das ondas de calor a 180 grandes poluidoras.
Nomear esses eventos é “uma forma poderosa de fazer com que as pessoas entendam que algo está acontecendo”, disse à Reuters Anthony Leiserowitz, da Universidade de Yale.