Um estudo publicado nesta segunda-feira (10) na revista Nature Climate Change aponta que dias quentes podem ganhar mais de 4 horas extras de calor extremo até 2070-2099, em cenário de altas emissões.
A pesquisa cruzou registros horários de temperatura entre 1981 e 2023 com projeções climáticas e mostra que o calor extremo, hoje concentrado em 16,4 horas de um dia quente, pode se estender por até 21 horas, com avanço mais rápido à noite.
Uma nova forma de medir o calor
A maioria dos estudos sobre ondas de calor usa indicadores diários, como temperatura média, máxima ou mínima do dia. Os autores do novo levantamento, publicado na Nature Climate Change, foram além: cruzaram registros horários de temperatura coletados entre 1981 e 2023 em diferentes regiões do planeta com projeções climáticas até 2099.
O recorte hora a hora revelou picos de calor que passam despercebidos quando o dia inteiro é resumido em poucos números. Em cerca de 80% das áreas terrestres analisadas, o número de horas extremamente quentes cresceu de forma significativa entre 1981 e 2023 — e o avanço foi mais acelerado durante a madrugada e a noite.
“Essa maior resolução temporal revela novos ‘picos’ de calor extremo em escala horária que, até agora, haviam passado despercebidos pelo uso de dados diários”, afirma Ernesto Rodríguez Camino, presidente da Associação Meteorológica Espanhola, ao Science Media Centre España.
Desigualdade entre países e gerações
O levantamento também expõe uma desigualdade marcante: países de baixa e média renda concentram mais de três quartos da exposição atual e projetada às temperaturas extremas. Quem nasceu em 2023 deve acumular, ao longo da vida, exposição muito maior ao calor extremo do que quem nasceu em 1981 — principalmente nas nações mais pobres.
Onda de calor na Europa reforça o alerta
O estudo foi divulgado em meio a mais um episódio de forte calor na Europa. No Reino Unido, o Met Office prevê uma nova onda nesta semana, com temperaturas que podem chegar a 36°C na quinta-feira (13) em partes da Inglaterra.
No contexto que o novo estudo ilustra, uma análise do Tropiquim mostrou que o calor europeu é especialmente perigoso porque as casas do continente retêm calor noturno — exatamente o fenômeno que a nova pesquisa projeta se intensificar nas próximas décadas.
Para José Miguel Viñas, meteorologista da Meteored e consultor da Organização Meteorológica Mundial, que já havia confirmado ser a última década a mais quente já registrada, olhar para as variações de temperatura ao longo do dia é um dos pontos mais importantes do novo trabalho, inclusive para entender melhor os efeitos das temperaturas persistentes sobre a saúde.
Os pesquisadores ressaltam que os indicadores diários não devem ser abandonados. A proposta é somar informações sobre em que horários o calor aparece e por quanto tempo persiste, o que pode aprimorar avisos à população e medidas de adaptação diante do aumento das temperaturas noturnas.