Um estudo publicado na revista Nature nesta quinta-feira (11) aponta que cerca de metade do aumento na intensidade e frequência das ondas de calor globais está diretamente ligada às emissões das 180 maiores produtoras de combustíveis fósseis e cimento.
Entre 2000 e 2023, essas empresas, conhecidas como carbon majors, responderam por 50% do agravamento dos eventos extremos, segundo a pesquisa que analisou 213 ondas de calor em 63 países.
O levantamento destaca que, sem as mudanças climáticas provocadas pelo ser humano, um quarto dessas ondas de calor seria praticamente impossível.
Responsabilidade das grandes emissoras
O estudo identificou que gigantes como ExxonMobil, Saudi Aramco, Shell, BP e Gazprom, além de estatais e empresas menores, compõem o grupo das principais responsáveis pelas emissões. No total, os 180 maiores emissores respondem por três quartos de todas as emissões globais de CO₂ provenientes de combustíveis fósseis e cimento desde meados do século XIX.
A análise mostra que as ondas de calor se tornaram 20 vezes mais prováveis nos anos 2000 e até 200 vezes mais frequentes na década seguinte, em comparação ao período pré-industrial (1850–1900). A intensidade média desses eventos também aumentou: 1,4°C entre 2000 e 2009, 1,7°C entre 2010 e 2019 e 2,2°C nos quatro anos mais recentes.
Impacto das pequenas empresas e avanços científicos
O estudo ressalta que a responsabilidade não recai apenas sobre grandes multinacionais: empresas de menor porte também contribuíram significativamente, tornando possíveis entre 16 e 53 ondas de calor que não ocorreriam em um clima estável. A metodologia empregada representa um avanço ao permitir quantificar a influência de empresas específicas em eventos extremos.
Implicações políticas e jurídicas
Especialistas avaliam que os resultados do estudo oferecem novas ferramentas para políticas públicas e podem fortalecer ações judiciais visando responsabilizar grandes poluidoras por perdas e danos relacionados ao aquecimento global.
Os juristas Michael B. Gerrard e Jessica A. Wentz, do Sabin Center for Climate Change Law da Universidade Columbia, comentaram na Nature que “o artigo de Quilcaille e colegas faz um caso convincente de que ondas de calor ao redor do mundo foram agravadas pela queima de combustíveis fósseis produzidos, em sua maioria, por um número limitado de empresas”. Eles destacam a importância desses estudos para responsabilização judicial das carbon majors, mas ressaltam que ainda há desafios legais: “Até agora, nenhum tribunal no mundo responsabilizou financeiramente os emissores pelas mudanças climáticas. O problema não é a fraqueza das evidências científicas, mas as várias questões legais que precisam ser resolvidas antes de os cientistas subirem ao banco das testemunhas”.