A Europa enfrenta nesta semana sua segunda grande onda de calor em apenas dois meses. Ao menos 101 milhões de pessoas conviveram com temperaturas acima de 35°C na última quinta-feira (25), e dois terços da população continental ficaram acima dos 30°C.
O Reino Unido registrou o dia de junho mais quente da história, com 36,4°C. A França colocou 54 departamentos em alerta vermelho e chegou a 44,3°C. Na Espanha, o litoral norte — normalmente ameno — bateu 43,7°C.
Para o Brasil, a crise europeia funciona como alerta: um estudo inédito em escala nacional estima que cerca de 120 mil mortes entre 2000 e 2019 podem ser atribuídas a ondas de calor — e 66% dos municípios brasileiros ainda não têm planos estruturados para enfrentar o fenômeno.
O que a Europa aprendeu — e onde ainda falha
A onda desta semana é a segunda em apenas dois meses: antes mesmo do verão europeu começar, o continente já enfrentava calor sem precedentes. A Europa aquece cerca de duas vezes mais rápido que a média global, tornando-se um laboratório involuntário de adaptação climática. Desde a onda de 2003 — que matou mais de 70 mil pessoas, a maioria na França —, países do continente ampliaram alertas, criaram redes de monitoramento e abriram espaços resfriados à população.
Para o epidemiologista Nelson Gouveia, professor da FMUSP, a peça mais eficaz não é o alerta meteorológico em si, mas o que vem depois dele: visitas regulares a idosos isolados, monitoramento de doentes crônicos e acesso gratuito a espaços climatizados foram os fatores que mais reduziram a mortalidade nos países que adotaram essas práticas.
Mas há um limite estrutural. O tecido urbano europeu — prédios históricos projetados para reter calor no inverno — virou armadilha no verão. Com apenas 20% dos lares com ar-condicionado, a corrida pelos aparelhos alimenta um ciclo vicioso: o uso massivo sobrecarrega redes elétricas e devolve calor às ruas. Nesta semana, o pico de consumo provocou apagões em Milão e Turim, e a Bélgica viu o preço da eletricidade superar 1 euro por kWh no fim da tarde.
Os números são expressivos. Estudos de atribuição rápida estimam que a mudança climática causou 16,5 mil das 24,4 mil mortes ligadas ao calor no verão europeu de 2025. Projeções apontam 2,3 milhões de mortes adicionais em cidades europeias até o fim do século, e a seguradora Allianz calcula perdas de até US$ 638 bilhões para as maiores economias do continente até 2030.
O Brasil ainda trata calor como problema alheio
Enquanto a Europa debate os limites da adaptação, o Brasil luta para reconhecer ondas de calor como emergência de saúde pública. Um estudo inédito estimou 120 mil mortes associadas ao fenômeno no país entre 2000 e 2019, com idosos representando oito em cada dez vítimas e pessoas mais pobres entre as mais afetadas.
Um levantamento da presidência da COP30 com o Pnuma, envolvendo 53 municípios, revelou que 66% ainda não iniciaram ou estão nas fases iniciais da elaboração de estratégias de calor. Outros 75% não usam dados de forma estruturada e 85% dependem de recursos externos para implementar qualquer ação.
Para Gouveia, o maior desafio brasileiro é o que a epidemiologia chama de racismo ambiental: enquanto bairros nobres desfrutam de microclimas amenos, periferias concentram os efeitos mais severos. Casas sem isolamento térmico, cobertas por telhas de zinco ou fibrocimento, acumulam calor durante o dia e permanecem quentes até a madrugada. Trabalhadores informais e entregadores raramente podem interromper atividades sem perder renda.
A pesquisadora Renata Libonati, da UFRJ, classifica ondas de calor como um “desastre negligenciado”: sem o impacto visual de enchentes ou deslizamentos, seus efeitos — agravamento de doenças cardiovasculares, respiratórias e renais — aparecem de forma indireta, dificultando a associação com o calor e reduzindo a atenção política ao problema.
As projeções são preocupantes. Estudo liderado por Gouveia, publicado na Environment International, estima que mortes relacionadas ao calor na América Latina podem mais que dobrar entre 2045 e 2054 — passando de 0,87% para 2,06% do total de óbitos.
