Um novo estudo da World Weather Attribution (WWA) revelou que os mares ao redor da Europa registraram, em 2026, temperaturas até 6°C acima do normal em algumas áreas, com a mudança climática apontada como fator direto do fenômeno.
Segundo os pesquisadores, o aquecimento provocado pelas atividades humanas somou 2°C ao calor do Mediterrâneo, 1,4°C à Península Ibérica e ao Golfo da Biscaia e 1,3°C aos mares próximos às Ilhas Britânicas.
Ondas de calor que já rompem os limites do clima pré-industrial
Para chegar aos resultados, os cientistas da WWA compararam o clima atual — cerca de 1,4°C mais quente que no período pré-industrial — com um cenário hipotético sem o aquecimento causado pelo ser humano. O grupo analisou os períodos de 14 dias com as temperaturas mais altas da superfície do mar em quatro regiões: Mediterrâneo, Península Ibérica, Golfo da Biscaia e os mares próximos ao Reino Unido e à Irlanda.
Em três das quatro áreas estudadas, as temperaturas registradas em 2026 seriam praticamente impossíveis em um clima pré-industrial. No Mediterrâneo Ocidental, o aumento das temperaturas extremas da superfície do mar chegou a 3,1°C; no Mediterrâneo Oriental, a 2,6°C — região que aquece mais rápido que a média global, como já mostrou outra análise, que registrou a maior anomalia de temperatura da superfície do mar do Mediterrâneo Ocidental em junho de 2025.
Extensão das ondas de calor preocupa cientistas
A dimensão territorial do fenômeno também chamou atenção da equipe. Em 2026, cerca de 90% do Golfo da Biscaia e da costa da Península Ibérica enfrentaram ondas de calor marinhas — períodos de vários dias com temperatura oceânica muito acima do esperado para a região. Sem o aquecimento humano, essa proporção seria de apenas 40%. No Mediterrâneo Oriental, quase 70% da área foi afetada, contra 9% no cenário sem mudança climática.
O calor prolongado nos oceanos ameaça organismos sensíveis, como corais, esponjas e grandes algas, que sustentam habitats no fundo do mar. A perda dessas espécies pode se espalhar pela cadeia alimentar e atingir peixes, aves e mamíferos marinhos, além de pressionar a pesca e a produção de alimentos nas regiões costeiras.
O mar mais quente também altera o clima costeiro: o ar fica mais úmido, as noites tendem a ser mais abafadas e aumentam as condições favoráveis a episódios de chuva intensa. Os oceanos absorvem cerca de 90% do excesso de calor gerado pelo efeito estufa, mas já mostram sinais de saturação desse sistema, o que ajuda a explicar a escala das ondas de calor observadas na Europa.
Cenário pode piorar
Se o planeta atingir 2,8°C de aquecimento em relação ao período pré-industrial, episódios como o de 2026 poderiam ter temperaturas entre 1,3°C e 1,9°C ainda mais altas. “Não podemos simplesmente nos adaptar e sair dessa situação”, afirmou Friederike Otto, professora de Ciência do Clima do Imperial College London e uma das autoras da análise. O planeta já está cerca de 1,4°C mais quente que o período pré-industrial, e as ondas de calor marinhas globais já triplicaram desde 1991, segundo levantamento anterior.