Meio ambiente

Oito em cada dez focos de fogo no Amazonas ocorrem em propriedades rurais privadas

Queimadas no entorno de Manaus aceleraram desde o primeiro turno e chegaram a 37 vezes o registrado no mesmo período de 2025
Vista aérea da floresta amazônica com agentes do Ibama, ilustrando os focos de fogo no Amazonas em propriedades rurais

Quase 80% do fogo registrado no Amazonas na primeira quinzena de outubro queimou dentro de imóveis rurais privados inscritos no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Dos 1.639 focos detectados pelo satélite de referência do Inpe entre os dias 1º e 15, 79,1% estavam nessas propriedades.

O recorte foi feito pelo Inpe a pedido do g1, em reportagem de Poliana Casemiro. O resultado reforça o que dizem a polícia, o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente: as chamas têm origem humana e criminosa.

Fogo proibido, mas sem trégua

Nenhuma propriedade do estado tem permissão para usar fogo. Queimar para manejar o solo, por exemplo para limpar pasto, depende de autorização do governo estadual, dada caso a caso, e nenhuma foi concedida. Além disso, desde 9 de setembro, quando a fumaça começou a sufocar a região, o uso do fogo está proibido em todo o Amazonas. Mesmo assim, os focos continuaram.

Segundo o presidente do Ibama, Jair Schmitt, a seca agravada pelo El Niño favorece o fogo, mas a origem no Amazonas é humana, e quem comete os crimes tem se aproveitado justamente desse cenário. Em ações de combate, fiscais do órgão flagraram garrafas com combustível sendo jogadas ao longo de estradas.

Desde 12 de outubro, o Ibama aplicou R$ 2 milhões em multas em Autazes e Careiro da Várzea, na região metropolitana de Manaus. A Polícia Federal e a Abin também investigam o caso, e a Polícia Civil do Amazonas já abriu mais de 120 procedimentos criminais. O Ibama lembra que fiscalizar o uso do fogo nas propriedades cabe ao governo estadual, que não tinha respondido até a publicação da reportagem.

O alerta não é novo: uma semana antes, o Ibama já tinha apontado o uso criminoso do fogo para abrir pasto e ampliar o desmatamento ilegal.

Desmatamento em queda, fogo em alta

A crise ocorre no mesmo momento em que o desmatamento atingiu o menor índice desde 1988, segundo dados do Inpe divulgados na semana passada: foram 3.335 km² derrubados entre agosto de 2025 e julho de 2026. Os dois números não se contradizem. O desmatamento mede quanta floresta foi derrubada. Já o fogo costuma vir depois, para limpar áreas já abertas ou renovar o pasto.

Os dados da plataforma TerraBrasilis, do Inpe, mostram que a maior parte dos focos está em terras já desmatadas, e não na floresta em pé. Só 15,9% atingiram vegetação nativa.

Mesmo essa parcela menor preocupa. Segundo Aragão, responsável pela análise, a seca deixa o fogo fora de controle, e as chamas avançam quilômetros além do ponto onde começaram. De julho até agora, Manaus acumulou 104 mm de chuva, cerca de um terço dos 316 mm esperados, segundo o Inmet. Agosto terminou sem nenhuma chuva registrada, quando a média do mês é de 56 mm.

Disparada a partir do primeiro turno

Um levantamento do Ipam em 19 municípios das regiões metropolitana e central do Amazonas mostra que o fogo acelerou a partir de 4 de outubro, dia do primeiro turno das eleições. Entre 4 e 14 de outubro, foram 5.598 focos de calor, 37 vezes os 149 do mesmo período de 2025. O número supera até os 4.385 de 2023, ano de seca extrema.

O comportamento foge do padrão. Na região, as queimadas costumam começar em agosto e recuar a partir do fim de setembro. Em 2026, setembro teve o pico esperado, com 6.861 focos, mas outubro já somava 6.183 até o dia 14. No ano, os 19 municípios acumulam 15.674 focos, 109% acima da média histórica. Só 2023 teve mais.

“Escalou muito rápido, em poucos dias”, afirma o pesquisador Newton Monteiro, responsável pelo levantamento. Ele lembra que outubro só foi tão ruim assim em 2023, durante uma seca histórica que não se repete agora. O Ipam usou dados do sensor VIIRS, do satélite Suomi NPP, que tem resolução mais alta e detecta mais focos que o satélite de referência.

Os sinais da escalada apareceram cedo: em 10 de outubro, o Amazonas somou 494 focos em um único dia, contra nenhum na mesma data de 2025.

Para o Ibama, a causa da alta ainda depende de investigação, mas o trabalho em campo mostra uma sensação de impunidade durante o período eleitoral.