Meio ambiente

Tráfico de espécies silvestres avança em redes sociais como Facebook e Shopee

Estudo internacional mapeia mais de 33 mil animais e plantas protegidos anunciados em 280 plataformas digitais
Logotipos do Facebook e TikTok com animais silvestres sobrepostos, evocando o tráfico de espécies silvestres online

Um levantamento internacional publicado na revista Nature Reviews Biodiversity revela que o comércio ilegal de fauna e flora se espalhou por plataformas como Facebook, TikTok, Instagram, YouTube, eBay, Alibaba e Shopee.

Coordenado pelo professor Enrico Di Minin, da Universidade de Helsinque, o estudo identificou 33.006 exemplares de espécies protegidas pela Cites anunciados em 280 plataformas, entre animais vivos e produtos derivados.

Primatas lideram anúncios, mas mercado é diversificado

Somente em quatro redes sociais, os pesquisadores encontraram mais de 1.600 primatas anunciados para venda durante seis semanas de monitoramento em 2025. No levantamento mais amplo, feito em 280 plataformas, foram registrados 33.006 exemplares de espécies protegidas pela Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites) — 54% eram animais vivos e 46% partes ou produtos derivados, como peles, garras e extratos.

Aves, serpentes, rãs, orquídeas e cactos aparecem entre as espécies afetadas, o que mostra um mercado que vai muito além dos animais mais visados tradicionalmente.

Por que o comércio migrou para a internet

Segundo o coautor Neil D’Cruze, da Universidade Metropolitana de Manchester, a baixa percepção de risco, a fraca regulação das plataformas e o anonimato online permitem que as operações aconteçam com rapidez e em escala muito superiores às dos circuitos tradicionais de contrabando.

Os pesquisadores alertam ainda que o tráfico digital amplia riscos que vão além da conservação: espécies invasoras podem se estabelecer em novos territórios e doenças transmitidas entre animais e humanos ganham novas rotas de disseminação.

África mostra o tamanho do problema

Um exemplo simbólico vem dos papagaios-cinzentos-africanos: segundo a Universidade da Cidade do Cabo (UCT), cerca de 800 mil exemplares foram comercializados internacionalmente entre 2010 e 2021. No Togo, o monitoramento de contas de exportadores no Facebook identificou mais de 200 espécies diferentes à venda.

Na África do Sul, o bioma do Karoo Suculento mostra como o mercado se adapta rápido. A alta procura por plantas do gênero Conophytum a partir de 2019 atraiu tantos coletores que saturou o mercado ilegal — em três anos, o preço da planta caiu para cerca de um centésimo do valor original. Segundo a UCT, a coleta agora migra para outras plantas e para répteis.

Cooperação internacional como resposta

Para a pesquisadora Annette Hübschle, da UCT, tecnologia e aplicação da lei sozinhas não bastam: comunidades locais e a experiência do Sul Global precisam ganhar peso em um campo de estudo ainda concentrado em ferramentas de detecção e nas regras das próprias plataformas.

Os autores do estudo defendem reforço da vigilância com inteligência artificial, moderação mais rígida das plataformas e melhor coordenação entre empresas de tecnologia, reguladores, ONGs e comunidades, apoiados em marcos como a Cites e a Lei de Serviços Digitais da União Europeia. Um caso recente ilustra a mesma lógica: em agosto, o Quênia condenou um cidadão chinês por contrabandear rainhas de formigas raras vendidas a colecionadores europeus por mais de 200 euros cada.

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