Meio ambiente

BR-163 aumenta poluição e esquenta mercado de carbono opaco na Amazônia

Caminhões e barcaças disparam doenças respiratórias em Itaituba e Santarém, enquanto créditos de carbono da região são vendidos sem rastreabilidade
Floresta amazônica vista do alto e lavoura de soja simbolizam os créditos de carbono na Amazônia sob risco de opacidade.

A rodovia BR-163, um dos principais corredores de exportação de soja e milho do Brasil, também virou símbolo dos custos ambientais e sociais do agronegócio na Amazônia. Entre Mato Grosso e Pará, o fluxo de até 1.500 caminhões por dia na safra eleva a poluição do ar em cidades como Itaituba e Santarém.

Enquanto isso, a concessionária que administra um trecho da rodovia no Mato Grosso afirma ter “neutralizado” suas emissões com créditos de carbono comprados de um projeto amazônico rebaixado por falta de transparência, apurou reportagem do ((o))eco.

Poluição do ar ameaça a saúde em Itaituba e Santarém

O tráfego de carga pesada na BR-163 é intenso: dados do Plano Nacional de Contagem de Tráfego mostram que Itaituba registrou média de 200 a 400 veículos por dia entre 2022 e 2025, com pico de 4.680 veículos na última semana de março de 2025. Medições da plataforma iQAir apontaram picos de material particulado fino (PM2.5) até quatro vezes acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde para 24 horas em Santarém.

“As mulheres são as mais afetadas: já temos esse trabalho de cuidar de casa e ainda essa preocupação de cuidar da saúde dos nossos”, relata Lucielle de Sousa, liderança do Movimento dos Atingidos por Barragens no Pará, sobre o aumento de casos de asma e bronquite ligados à poeira dos caminhões em Miritituba.

Caminhões concentram a maior parte das emissões do transporte

Embora sejam apenas 5% da frota nacional, os cerca de 2 milhões de caminhões do Brasil respondem por 65% do transporte de cargas e 85% da poluição do ar da mobilidade no país, segundo o Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Rodoviários.

Créditos de carbono sem rastreabilidade movimentam a rodovia

No trecho mato-grossense, a concessionária Nova Rota do Oeste passou, em 2023, a ser controlada pelo próprio Estado de Mato Grosso, via a estatal MT PAR, em um modelo inédito de gestão híbrida homologado pelo Tribunal de Contas da União. Desde então, a empresa assumiu metas de compensação de carbono como parte de sua estratégia de sustentabilidade.

Para cumprir essas metas, a Nova Rota do Oeste diz ter neutralizado 100% do carbono emitido em 2024 com créditos do projeto Cikel Brazilian Amazon REDD, no Pará. O volume informado à imprensa, 4.030 toneladas, diverge do inventário oficial enviado à Agência Nacional de Transportes Terrestres, de 3.285,9 toneladas — 745 toneladas de diferença.

Em março de 2026, o próprio projeto Cikel teve nota rebaixada de “BB” para “B” pela avaliadora BeZero Carbon, classificação que indica baixa confiança de que os créditos vendidos correspondam de fato a carbono evitado na floresta.

Comunidades indígenas denunciam venda de créditos sem consulta

O Ministério Público Federal abriu ação civil pública contra o Estado do Pará por irregularidades no sistema de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, incluindo venda de créditos antes da consulta prévia às comunidades tradicionais — prática vedada pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.

Até maio de 2026, apenas 14 das 47 consultas previstas às comunidades das Cinco Amazônias paraenses haviam sido concluídas. Desde a ação do MPF, novos contratos de venda de créditos de terras do Pará estão suspensos.

“O mercado de carbono é uma invenção do capital, não para compensar as comunidades tradicionais, mas para benefício dos próprios acionistas. Nossas terras, árvores e águas não são mercadoria”, afirma Auricélia Arapiuns, liderança do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, moradora de Santarém.

A ANTT informou que não há obrigação contratual para a concessionária detalhar seus inventários de emissões, nem atribuição regulatória para verificar a origem dos créditos usados nas metas de neutralização.

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