A pele do pirarucu, peixe gigante da Amazônia, virou matéria-prima para bolsas de luxo, impulsionando o mercado de moda sustentável. Porém, os pescadores locais relatam que os lucros dessa cadeia produtiva não chegam até eles. A concentração de mercado e a falta de apoio técnico dificultam o acesso das comunidades aos benefícios econômicos gerados.
O pirarucu e o mercado de luxo
O pirarucu é um dos maiores peixes de água doce do mundo e símbolo da Amazônia. Sua pele, antes descartada, passou a ser valorizada por empresas de moda, que a transformam em bolsas e acessórios exclusivos. A textura e resistência do material atraem consumidores preocupados com sustentabilidade. Marcas nacionais e internacionais, como Giorgio Armani, Dolce & Gabbana e Givenchy, utilizam o couro do peixe em seus produtos de alto padrão.
Desigualdade na cadeia produtiva
Apesar do sucesso comercial, os pescadores responsáveis pela captura do pirarucu não recebem uma parcela justa dos lucros. O processamento da pele é complexo e caro, exigindo tecnologia e etapas como lavagem, tingimento e costura, o que limita a participação das comunidades. Segundo pesquisa da Opan, 95% das peles são comercializadas por frigoríficos, enquanto apenas 5% passam pelas associações comunitárias.
Pedro Canízio, da Federação dos Manejadores de Pirarucu de Mamirauá, afirma que o manejo deu certo, mas falta reconhecimento e remuneração adequada aos pescadores. “Com o pouco que lucramos com o manejo fazemos a vigilância dos lagos”, diz. A concentração de mercado também é criticada por organizações como o Memorial Chico Mendes, que apontam atrasos nos pagamentos e falta de opções de venda.
Desafios e perspectivas para comunidades
Iniciativas como o Coletivo do Pirarucu e a marca Gosto da Amazônia tentam valorizar o trabalho dos manejadores, mas faltam recursos para que as comunidades processem o couro localmente. Ana Alice Oliveira de Britto, da Asproc, defende políticas públicas para capacitar pescadores e permitir que agreguem valor ao produto. “Se essa atividade não remunerar com justiça, as comunidades podem migrar para atividades mais danosas ao meio ambiente”, alerta.
Mercado e sustentabilidade
A empresa Nova Kaeru domina o setor, respondendo por até 70% das exportações, e destaca que investe em qualificação e logística, mas afirma não definir preços das peles, negociados localmente. O segmento de luxo representa apenas 5% da demanda, sendo o principal mercado as botas country nos EUA. Marcas como Osklen e Piper & Skye reforçam o compromisso com a sustentabilidade e a rastreabilidade, mas reconhecem desafios de transparência e remuneração justa.
Fiscalização e ilegalidade
A fiscalização enfrenta dificuldades para controlar o contrabando e a pesca ilegal de pirarucu. Igor de Brito, do Ibama, admite limitações de pessoal e sistemas de rastreamento. O assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira, em 2022, trouxe à tona a gravidade dos crimes ambientais na região. Desde 2000, o Ibama registrou 1,1 mil multas relacionadas ao pirarucu, principalmente por pesca e transporte ilegal.