O que sobra da agropecuária e das indústrias instaladas no interior do Brasil pode virar energia, emprego e renda sem sair do município. A tese foi defendida pelo chefe-geral da Embrapa Agroenergia, Bruno Laviola, no Seminário Nacional de Gestão Ambiental, em Brasília.
Para ele, a bioeconomia só gera benefício concreto se o debate descer do plano federal para as prefeituras — e o caminho são as biorrefinarias regionais, capazes de processar biomassa e resíduo perto de onde eles são gerados.
Processar em casa multiplica o valor
Laviola recorreu a um estudo do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), feito em parceria com a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais): cada tonelada de soja produzida e processada no Brasil gera um PIB mais de 4 vezes superior ao da mesma tonelada embarcada como grão bruto.
É desse número que parte a defesa das biorrefinarias regionais — unidades que integram biomassas, resíduos e coprodutos da agropecuária e das indústrias locais para produzir novos materiais, energia renovável como biogás e biometano, e nutrientes reciclados de volta para a lavoura.
“Podemos transformar um problema de destinação de resíduos em uma oportunidade produtiva”, resumiu o gestor, durante o painel “Governança Ambiental para Municípios: Soluções para os Territórios”, realizado em 23 de setembro na sede da Associação Brasileira de Municípios (ABM).
Os três passos pedidos às prefeituras
O primeiro é conhecer o potencial local: mapear produção, resíduos disponíveis, empresas instaladas e a demanda da região por energia e outros produtos.
O segundo é aproximar os atores — produtores, cooperativas, empresas, instituições de pesquisa e assistência técnica. A articulação pode incluir municípios vizinhos, já que as cadeias produtivas e a escala dos projetos costumam ultrapassar os limites de uma única cidade.
O terceiro é converter oportunidade em projeto, com parceiros definidos, responsabilidades divididas, avaliação de viabilidade e rotas de financiamento identificadas. A aposta tem respaldo em outros setores: empresas brasileiras que adotaram a economia circular, reaproveitando resíduos e materiais, já registram corte de custos e ganho de competitividade.
Quem mais esteve na mesa
O painel reuniu instituições e empresas para discutir como programas, tecnologias e modelos de cooperação podem reforçar a gestão ambiental municipal na prática. Fábio Santos, presidente da Sagatech, tratou de decisão municipal baseada em dados; Cícero Oliveira de Paula, coordenador-geral da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), apresentou o programa Rede Clima Municipal e a pauta de saneamento e saúde ambiental.
Matheus Miranda de Ávila, coordenador de Fomento a Cadeias Agrícolas do Ministério da Agricultura e Pecuária, detalhou instrumentos de apoio à transição para sistemas produtivos sustentáveis, enquanto Charles Castro, consultor técnico do Instituto Ação Nacional, falou de capacitação e estruturação de projetos nos territórios.
O modelo já tem versões rodando fora do papel: empreendedoras da Amazônia transformaram resíduos e biodiversidade local em negócios de bioeconomia que sustentam a renda de centenas de famílias.
Laviola afirmou que o papel da Embrapa e das instituições de ciência e tecnologia é reduzir incertezas e ajudar a desenhar soluções adequadas a cada realidade. “O futuro da bioeconomia também será construído a partir dos territórios”, disse, propondo que a conversa comece por uma pergunta simples: o que a região já produz e como aproveitar melhor isso.