Os municípios brasileiros classificados pelo governo federal como suscetíveis a enxurradas e inundações contrataram, em 2025, R$ 64 por habitante em crédito para obras de infraestrutura verde e resiliência ambiental. Nas cidades fora dessa lista, o valor foi de R$ 197.
A diferença de 68% aparece em levantamento do Poder360, que cruzou dados inéditos de operações de crédito reunidos pela Abde (Associação Brasileira dos Bancos de Desenvolvimento) com a lista de risco da Casa Civil.
Ou seja: onde a água já tem endereço conhecido, o crédito para prevenir desastres chega menos.
A conta não fecha onde a água passa
Em valores absolutos, os 17 municípios suscetíveis que recorreram a esse tipo de crédito somaram R$ 406,3 milhões, acima dos R$ 292,2 milhões contratados por outras 28 cidades. A inversão aparece quando o dinheiro é dividido pela população.
O padrão se repete em outras frentes da prevenção. Com saneamento incluído na conta, são R$ 122 por habitante nos municípios de risco contra R$ 265 nos demais. Em gastos associados à Defesa Civil, R$ 11,88 contra R$ 20,89 — 43% menos.
O risco, porém, é quase universal: entre 1991 e 2024, 5.097 das 5.570 cidades brasileiras registraram ao menos um desastre ligado à água, segundo pesquisadores do Cemaden, da USP e do Inpe em artigo na revista Environmental Research Letters. Um levantamento do Unicef já havia identificado 333 municípios com vulnerabilidade ambiental severa, somando saneamento precário, eventos climáticos extremos e má qualidade do ar.
O gargalo é o projeto, não o dinheiro
“Recurso tem. Recurso reembolsável tem bastante. As instituições, principalmente as federais maiores, conseguem mobilizar recurso pelo país inteiro”, afirma Eduardo Djanikian, gerente de Sustentabilidade, Economia e Inovação da Abde. O que falta, segundo ele, é equipe técnica nas prefeituras menores para transformar diagnóstico em projeto — e uma Capag, a nota de capacidade de pagamento do Tesouro, que autorize a dívida.
Pesa também o hábito: “Asfalto já tem uma esteira de funcionamento e acaba se desenvolvendo mais rápido do que esses projetos de resiliência climática, que tem muitas particularidades”, diz.
Unaí e o caminho até a obra
Em Unaí (MG), Rosemari Peres Barbosa convive há 20 anos com a água que desce da serra e vira córrego na porta de casa. Perdeu móveis, comida e a primeira casa que ergueu no terreno; o marido improvisou uma ponte de madeira para as crianças atravessarem o alagado até a escola. “Todo ano a gente passa pelo mesmo problema”, resume.
A rede de drenagem que resolve o caso — R$ 1,1 milhão para 1 km de escoamento, financiados pelo Banco do Brasil — só avançou depois que a prefeitura arrumou as contas e chegou à Capag A. Mesmo assim, estudos e autorização legislativa consumiram mais de oito meses.
Alguns Estados tentam encurtar esse percurso. Em Mato Grosso do Sul, o programa MS Ativo estruturou cerca de R$ 1,5 bilhão em projetos desde 2023, com obras entregues ou em execução nos 79 municípios. Djanikian cita arranjos semelhantes no Paraná e no BDMG. Ferramentas de priorização também já existem: um método criado na USP avalia trecho a trecho a resiliência urbana a enchentes, cruzando profundidade da água com indicadores sociais.
O custo de esperar
Entre 1991 e 2024, desastres ligados à água mataram 4.774 pessoas, afetaram 129,8 milhões e deixaram prejuízos superiores a R$ 740 bilhões. Em 2024, as verbas emergenciais de resposta a desastres foram quase dez vezes maiores que as de prevenção, segundo estimativa do CICEF. Para a Cepal, a crise climática pode reduzir o PIB per capita latino-americano entre 0,8% e 6,3% até 2030. “Adiar a prevenção não elimina o problema. Apenas desloca a conta”, diz Djanikian.