Meio ambiente

Checagem classifica como falsas falas de Flávio Bolsonaro sobre clima e áreas protegidas

Nenhuma das oito declarações analisadas passou sem correção; candidato do PL já escreveu que a Terra está esfriando
Floresta amazônica com trecho desmatado e lupa sobre documentos, simbolizando Flávio Bolsonaro meio ambiente checagem

Nenhuma das oito falas de Flávio Bolsonaro (PL) sobre clima e meio ambiente checadas pelo Fakebook.eco, iniciativa do Observatório do Clima, passou sem correção: quatro foram classificadas como falsas, duas como falaciosas e duas como verdadeiras, mas com ressalvas.

Publicada pelo ((o))eco na sexta-feira (16), a checagem de Aldem Bourscheit, Priscila Pacheco, Roberto Kaz, Claudio Angelo e Cristiane Prizibisczki reúne discursos no Senado, a sabatina no Jornal Nacional e textos escritos com o senador Márcio Bittar.

O ponto central, a menos de um mês da eleição, é a negação do aquecimento global: o candidato à Presidência já afirmou que o homem não altera o clima global e que o planeta está esfriando.

O que a ciência diz sobre o aquecimento

Na sabatina do Jornal Nacional, em agosto, Flávio disse que existem “épocas cíclicas” mais quentes e mais frias e que não acha que os eventos extremos tenham a ver diretamente “só com a influência humana”. Em 2019, em artigo com Bittar, foi além: escreveu que, apesar do aumento das emissões de CO2, “o mundo está passando por um resfriamento global”.

A checagem contrapõe os dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC): a Terra aqueceu 1,3 °C desde 1850, cada uma das últimas quatro décadas foi mais quente que a anterior e, em 2024, o aquecimento médio passou de 1,5 °C. Segundo o painel, a humanidade é provavelmente responsável por 98% desse aquecimento.

Saneamento e enchentes no Rio Grande do Sul

Questionado sobre mudanças climáticas, o candidato apontou o saneamento básico como “a melhor forma” de proteger o meio ambiente. O setor de resíduos, porém, respondeu por apenas 5% das emissões brasileiras em 2024, atrás de mudança de uso da terra, que inclui o desmatamento (42%), agropecuária (29%) e energia (20%).

Em maio de 2024, no plenário do Senado, Flávio atribuiu as inundações gaúchas ao crescimento urbano desordenado, e não à emissão de carbono. Estudo da Rede Mundial de Atribuição concluiu que as chuvas extremas ficaram ao menos duas vezes mais prováveis por causa das mudanças climáticas e de 6% a 9% mais intensas. Em 2015, o estudo federal “Brasil 2040” já previa chuvas mais intensas e prolongadas na bacia do Prata.

Florestas e chuva

No artigo de 2019, os senadores ironizaram a ideia de que “florestas geram chuvas”. O trecho foi classificado como falacioso: pela evapotranspiração, as árvores devolvem umidade à atmosfera e ajudam a formar chuvas, o que estudos do ecólogo Enéas Salati demonstram desde os anos 1970.

A negação da crise climática já aparecia no programa de governo do candidato, que, segundo análise do Observatório do Clima em setembro, traz sete propostas antiambientais.

Áreas protegidas e o fim da reserva legal

As outras quatro falas checadas estão na justificativa do Projeto de Lei 2362/2019, de Flávio e Bittar, que propunha acabar com a reserva legal em propriedades rurais. O texto diz que dois terços do país são dedicados à preservação, afirmação considerada falaciosa por somar assentamentos, áreas militares, terras devolutas e imóveis rurais, confundindo cobertura vegetal, proteção legal e uso da terra.

Segundo o MapBiomas, cerca de 65% do território tem vegetação nativa, mas 11% já queimou e 9% foi desmatado ao menos uma vez nas últimas três décadas. Cerca de metade dessa vegetação está em propriedades privadas, onde parte pode ser desmatada legalmente.

O dado de cerca de 30% do território em unidades de conservação e Terras Indígenas está correto, mas a fonte citada, o CAR, e os números detalhados não. A comparação com Austrália, EUA e Canadá deixa de fora 33 países que protegem mais que o Brasil, como Alemanha e Venezuela. Já a tese de que os americanos são mais ricos por usarem 74,3% do território na agropecuária é falsa: segundo a FAO, a fatia é de 46%, e o setor responde por 0,8% do PIB dos EUA, de acordo com o Our World in Data.

Em outra frente, o candidato prometeu não demarcar nenhuma terra indígena e defendeu liberar lavouras e mineração nesses territórios. Já em junho, em Belém, o então pré-candidato defendeu flexibilizar licenças ambientais para o agronegócio e a mineração na Amazônia.