Donald Trump classificou a mudança climática como “farsa” durante discurso na Assembleia Geral da ONU em Nova York nesta terça-feira (23). O presidente dos EUA questionou o consenso científico e defendeu o uso do carvão, apesar dos dados globais que confirmam o aquecimento recorde do planeta em 2024.
Organismos como a OMM e a Nasa apontam aumento de temperatura e CO₂, enquanto especialistas e ambientalistas criticam a postura do líder americano.
Contraste entre discurso político e dados científicos
No discurso, Trump afirmou que o consenso científico sobre o clima foi “feito por pessoas estúpidas”, celebrou a saída dos EUA do Acordo de Paris e defendeu o carvão como fonte de energia. Essas declarações contrastam com dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM), que confirmou 2024 como o ano mais quente já registrado, com uma média global 1,55°C acima dos níveis pré-industriais.
Segundo a Nasa, a Terra esteve 1,47°C mais quente em relação ao final do século XIX. Pesquisas indicam que mais de 99% dos especialistas em clima atribuem o aquecimento global à ação humana, e o IPCC classifica o processo como “inequívoco” e sem precedentes em milhares de anos.
Entre as evidências estão o derretimento acelerado de geleiras, redução histórica do gelo no Ártico e elevação do nível do mar. As concentrações de CO₂ chegaram a 422,5 partes por milhão em 2024, 52% acima dos níveis pré-industriais, e as emissões globais de combustíveis fósseis bateram recorde, atingindo 37,4 bilhões de toneladas no último ano.
Especialistas alertam que mais de 3 bilhões de pessoas vivem em áreas altamente vulneráveis às mudanças climáticas, e metade da população mundial enfrenta escassez severa de água por ao menos um mês por ano. Eventos extremos, como ondas de calor, tempestades e secas, estão mais frequentes e intensos.
A ambientalista Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, criticou o discurso: “O discurso de Trump foi um delírio… Não é preciso grande esforço para ver a desconexão pois a realidade já desmente por si só.” Ela destacou a importância de reafirmar fatos e valorizar a cooperação internacional.
ONU e a preparação para a COP30
Na véspera do discurso de Trump, Simon Stiell, secretário-executivo da ONU para o Clima, falou durante a Climate Week em Nova York. Ele alertou que a 30ª Conferência do Clima (COP30), em novembro, em Belém (PA), será um teste para a cooperação internacional gerar resultados concretos.
Stiell cobrou que países apresentem novos planos de corte de emissões e um roteiro financeiro robusto, capaz de mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano para apoiar países mais pobres. A União Europeia, por exemplo, levou apenas uma carta de intenção, sinalizando redução de emissões entre 66,25% e 72,5% até 2035, sem compromisso fechado.
O chefe da ONU para o Clima destacou que a COP30 deve impulsionar uma implementação mais rápida e ampla, mostrando que a ação climática impacta diretamente a vida das pessoas, com empregos melhores, ar mais limpo e energia acessível. Ele lembrou que, sem cooperação, o planeta caminhava para 5°C de aquecimento; hoje, a projeção é de 3°C, ainda acima da meta de 1,5°C definida no Acordo de Paris.
Relatórios do IPCC indicam que, mesmo com 1,5°C, já há perdas consideráveis, mas impactos seriam piores com 2°C ou mais. Dados recentes apontam que esse limite já está sendo superado.