Política

PF prende Márcio Canella, deputado eleito no RJ, e ex-chefe da Polícia Civil em operação contra lavagem

Segundo a PF, o esquema usava 96 postos de combustíveis para lavar dinheiro do tráfico e movimentou R$ 7,6 bilhões em seis anos
PF prende deputado Márcio Canella: distintivo da Polícia Federal sobre equipe policial em operação

A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira (15) o deputado estadual Márcio Canella (União-RJ), ex-prefeito de Belford Roxo e segundo mais votado para a Alerj, e o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil.

As prisões fazem parte da oitava fase da Operação Unha e Carne, que investiga agentes públicos ligados ao crime organizado no Rio de Janeiro. Foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF.

As defesas de Canella e Amim disseram que só vão se manifestar depois de ter acesso aos autos.

Postos de combustíveis usados para lavar dinheiro

De acordo com a PF, o grupo usava uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio para lavar dinheiro do tráfico de drogas. A corporação apura uma movimentação de R$ 7,6 bilhões em 96 estabelecimentos ao longo de seis anos.

Em comunicado, a PF descreveu o alvo como uma organização criminosa armada que conta com “a participação de agentes públicos e articulação político-institucional”.

Nas investigações, a corporação define o grupo como uma “estrutura estável e permanente, com divisão funcional de tarefas”, composta por núcleos político, econômico-financeiro, operacional e institucional. Segundo a PF, o objetivo era obter vantagens ilícitas por meio da exploração econômica dos postos, da lavagem de dinheiro, do direcionamento de contratos públicos e da cooptação de agentes públicos.

O papel atribuído a Canella

Na decisão, divulgada no meio da manhã, Moraes descreve o deputado como “principal articulador político da organização” e elo entre o núcleo empresarial dos postos, os agentes públicos e os demais integrantes do grupo. A PF também aponta que ele exercia “função estratégica de articulação política” no esquema.

Segundo o ministro, Canella usava sua influência para colocar pessoas alinhadas ao grupo em cargos estratégicos da administração pública, “conferindo-lhe proteção institucional e capacidade de influência sobre órgãos estatais”.

Para a PF, o parlamentar era ainda “beneficiário de valores distribuídos pelo grupo”, o que, na avaliação da corporação, “evidencia sua posição de destaque na preservação dos interesses e da capacidade de influência da organização”. Canella foi eleito com 197.178 votos, o segundo melhor desempenho para a Assembleia Legislativa do Rio.

Mandados e bloqueio de empresas

Ao todo, foram autorizados seis mandados de prisão e 16 de busca e apreensão em municípios como Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Niterói, São Gonçalo, Petrópolis, Angra dos Reis e Armação dos Búzios. Além de Canella e Amim, quatro inspetores da Polícia Civil fluminense foram presos. A casa de outro delegado foi alvo de buscas.

Moraes também mandou sequestrar bens e valores e suspendeu as atividades econômicas de 112 empresas investigadas, das quais 96 são postos de combustíveis suspeitos de serem usados para camuflar e legalizar recursos de origem criminosa.

Investigação já tinha atingido os dois em julho

A nova fase é um desdobramento de uma investigação que já tinha atingido Canella e Amim em julho. Na ocasião, Canella chegou a ser preso em flagrante depois que agentes encontraram um fuzil de calibre restrito em seu carro. Conforme a participação de cada um, os investigados podem responder por organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel.

As fases anteriores da Unha e Carne atingiram políticos, empresários e integrantes do Judiciário e das forças de segurança. Entre os investigados estão o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, o ex-deputado estadual Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, e o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto. Essas frentes envolvem suspeitas de vazamento de informações sigilosas e de proteção a integrantes do crime organizado.

Ligação com a família Bolsonaro

Antes de concorrer à Alerj, Canella havia lançado pré-candidatura ao Senado, e a mãe do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), Rogéria Bolsonaro (PL-RJ), foi escolhida como sua primeira suplente. Segundo jornais fluminenses, como O Globo e o Tempo Real, a decisão veio após uma reunião do PL do Rio em 23 de fevereiro. Em 22 de abril, Flávio publicou, em colaboração no Instagram com Canella, um vídeo de apoio à pré-candidatura do então prefeito de Belford Roxo.

Canella acabou desistindo do Senado e disputou a Assembleia Legislativa, onde terminou como o segundo mais votado. Rogéria, por sua vez, concorreu a deputada federal e não foi eleita. Até a publicação da reportagem que revelou o episódio, a campanha de Flávio e Rogéria não haviam respondido aos pedidos de manifestação, e a defesa de Canella também não se pronunciou.

Belford Roxo, antigo reduto de Canella, já tinha entrado no radar do MP Eleitoral em junho, quando candidatos que foram secretários na gestão dele tiveram os registros negados por ligação com milícia. A prisão também se soma a outras operações recentes da PF no Rio contra agentes públicos, como a Sem Refino, em maio, que teve como alvos um policial civil e o ex-governador Cláudio Castro.

Segundo a PF, a investigação também está ligada a determinações do STF na ADPF 635, a chamada “ADPF das Favelas”, que prevê medidas para apurar relações entre agentes públicos e facções criminosas.