Nove em cada dez brasileiros já sentiram algum impacto das mudanças climáticas — chuvas fortes, ondas de calor, alimentos mais caros ou contas de luz mais altas. Mas somente seis em cada dez reconhecem que esse cenário tem origem na ação humana.
O dado expõe uma fratura entre experiência e consciência. Enquanto o país debate, os custos crescem: o CICEF (2026) estima que o Brasil perde mais de R$ 110 bilhões do PIB por ano em decorrência de desastres climáticos.
O contraste entre discurso e investimento fica ainda mais evidente quando se analisa o orçamento público destinado ao clima. Em 2024, as verbas emergenciais acionadas em resposta a desastres — como as inundações que devastaram a bacia do Rio Guaíba, no Rio Grande do Sul — foram quase dez vezes superiores aos recursos aplicados em prevenção e preparação.
A lógica é perversa: o Brasil gasta muito mais para reparar estragos do que para evitá-los. A revisão das prioridades de alocação orçamentária tornou-se urgente para que União, estados e municípios consigam mitigar impactos e promover desenvolvimento com os recursos disponíveis.
A governança climática avançou, mas em ritmo aquém da crescente frequência e intensidade dos eventos extremos, conforme aponta o último Anuário Estadual de Mudanças Climáticas. Enquanto isso, 34% dos brasileiros acreditam que os governos poderiam contribuir mais para enfrentar o problema.
A distância entre discurso e ação já chegou ao Judiciário: o ministro Flávio Dino intimou União e estados da Amazônia Legal e do Pantanal a apresentarem planos concretos de combate a incêndios antes do pico do El Niño — um sinal de que a governança climática segue sob pressão institucional.
O paradoxo do engajamento
Há um contraste difícil de ignorar nos dados: três em cada quatro brasileiros afirmam estar preocupados com as mudanças climáticas. No entanto, 43% não modificaram qualquer hábito nos últimos doze meses — seja reduzir consumo de água e energia, separar o lixo ou reconsiderar a intenção de voto.
Apenas 35% dos entrevistados já escolheram um candidato com base em propostas ambientais, embora 89% reconheçam as mudanças climáticas como uma ameaça real à vida no país. O dado revela que, mesmo quando a consciência existe, ela raramente se converte em ação política concreta.
Em ano eleitoral, o peso do tema clima nas urnas pode ser determinante. Para além dos governos, as escolhas individuais — do consumo diário ao voto — compõem o tecido de resposta coletiva que o país ainda precisa construir.
O cenário que preocupa os cientistas é concreto: a probabilidade de formação de um novo El Niño já supera 90% a partir de setembro, segundo a NOAA — um pano de fundo que torna a impreparação brasileira ainda mais urgente.
