A qualidade do ar em Manaus chegou nesta quarta-feira (23) ao pior nível do mundo: a capital amazonense registrou pico de 324,1 µg/m³, acima do limite de segurança recomendado pela OMS para 24 horas, de 15 µg/m³.
O índice, medido pela plataforma Selva, supera a média de Kinshasa, capital do Congo, que liderava o ranking de pior qualidade do ar com 172,6 µg/m³ na plataforma IQAir. A fumaça vem de queimadas na floresta e em pastos.
Amazonas soma 3.240 focos de calor em 23 dias
O Inpe contabilizou 3.240 focos de calor no estado do Amazonas entre 1º e 23 de setembro de 2026. Segundo a reportagem da Amazônia Real, assinada pela jornalista Nicoly Ambrosio, a origem da fumaça está em queimadas florestais descontroladas e na queima de pastos — e as autoridades ambientais seguem inertes diante do quadro.
O contraste com Kinshasa dá a medida do episódio: o pico amazonense de 324,1 µg/m³ é quase o dobro do índice que colocou a capital congolesa no topo da lista global. O parâmetro da OMS para exposição de 24 horas é de apenas 15 µg/m³.
Um cenário anunciado desde agosto
O quadro já vinha se desenhando: em agosto, Manaus registrou calor recorde de 36,3 °C sob efeito do El Niño, com mais de 200 focos de incêndio contabilizados só nas duas primeiras semanas do mês.
Às 13h de quarta-feira, a fumaça continuava no horizonte da cidade, em mais um dia cinzento de setembro — como mostra o registro feito no bairro Petrópolis, na zona sul.
Crianças e idosos no grupo de maior risco
Crianças e idosos estão entre os grupos mais vulneráveis à poluição por gases tóxicos liberados na queima da floresta, como o carbono. É esse público que primeiro aparece nas emergências quando o material particulado fino se acumula sobre a cidade.
Estudos apontam que a fumaça de queimadas, carregada de monóxido de carbono e partículas finas, pode responder por até 1,4 milhão de mortes por ano no mundo até 2100.
Não é a primeira vez que a fumaça amazônica sobrecarrega o atendimento público: em 2024, o mesmo tipo de exposição levou 3,7 milhões de pessoas a procurar ajuda médica por sintomas respiratórios — efeito que a literatura científica associa até a casos de câncer de pulmão entre quem nunca fumou.