Meio ambiente

Zoológico indiano Vantara negocia com o Brasil parceria pela ararinha-azul

Documentos obtidos via Lei de Acesso à Informação revelam reuniões com ICMBio e Itamaraty e visita a Jamnagar cancelada na véspera
Ararinha-azul em destaque simboliza parceria Vantara ararinha-azul Brasil negociada com o Itamaraty

O zoológico privado indiano Vantara, do bilionário Anant Ambani, procurou o governo brasileiro em agosto de 2025 para propor uma parceria estratégica de conservação envolvendo espécies ameaçadas do Brasil.

A ofensiva aparece em documentos liberados pela Lei de Acesso à Informação e revelados pela Mongabay Brasil, em reportagem de Xavier Bartaburu: houve reuniões com ICMBio, Ministério do Meio Ambiente e Itamaraty, e uma visita brasileira à Índia cancelada na véspera.

No centro da proposta está a ararinha-azul, extinta na natureza e cujas 26 aves foram enviadas da Alemanha ao zoológico em 2023 sem aval do Brasil.

Uma carta, três órgãos do governo

A primeira investida chegou por e-mail em 30 de agosto de 2025, com o assunto “Proposta de Parceria Estratégica de Conservação com o Governo do Brasil”. O documento usa o nome oficial do zoológico, Greens Zoological Rescue and Rehabilitation Centre Society (GZRRC), e foi endereçado ao presidente do ICMBio, Mauro Pires, ao diretor Marcelo Marcelino de Oliveira e ao chefe da Divisão de Assuntos Internacionais, Raul Fontoura. O nome do remetente foi ocultado.

Sem citar espécies, a carta afirma que o Vantara está “bem posicionado para auxiliar outras espécies brasileiras que necessitam de intervenção ex situ urgente” — ou seja, manejo em cativeiro em vez de conservação no habitat. Em troca de acesso à “infraestrutura avançada” e às “redes globais” do complexo de 1.400 hectares em Jamnagar, o zoológico ganharia espaço em um dos países mais biodiversos do mundo. As autoridades foram convidadas a conhecer as instalações.

Em 23 de outubro de 2025, representantes do zoológico estiveram no Brasil e se reuniram com a Divisão de Assuntos Internacionais do ICMBio, a assessoria internacional do Ministério do Meio Ambiente e a Divisão de Biodiversidade do Itamaraty. No mesmo dia saiu uma segunda carta, agora específica: um “marco de cooperação” no qual o GZRRC assumiria a reprodução, os cuidados veterinários e o manejo das ararinhas que mantém na Índia, e as aves “serão disponibilizadas para reintrodução” sob supervisão conjunta com o ICMBio.

O que o ICMBio respondeu

Em 13 de dezembro, Pires devolveu a bola: para colaborar, o Vantara deve aderir formalmente ao Programa de Manejo Populacional da espécie, como já fazem a Azab e a Fundação Loro Parque. E cobrou o que nunca havia sido entregue — dados de saúde e manejo das 26 aves recebidas em 2023. O relatório só chegou em março de 2026, com sexo, microchip, ano de nascimento e exames de doenças transmissíveis.

Um interlocutor sob investigação

Aberto em março de 2025 com mais de 150 mil animais, o Vantara acumula suspeitas de que parte de seu acervo tenha origem no tráfico. Após inspecionar o complexo em setembro de 2025, a Secretaria da Cites pediu que a Índia não emitisse novas licenças de importação de espécies ameaçadas, por divergências entre dados de exportação e importação. A recomendação caiu em reunião no Uzbequistão, em novembro, com votos decisivos de Brasil, Japão e Estados Unidos. A Suprema Corte indiana não apontou irregularidades nas aquisições, e o zoológico adotou em 2026 um embargo voluntário de 12 meses às importações, sem admitir erro.

No Brasil, a Polícia Federal apreendeu em maio de 2026 celulares e um computador do criador de aves Tony Silva — condenado nos EUA nos anos 1990 por tráfico — em apuração sobre o “tráfico internacional de micos-leões-dourados e outras espécies ameaçadas da fauna brasileira”. O Vantara nega irregularidades e diz que Silva prestou “consultoria limitada”, contratado por um terceiro.

Foi nesse cenário que a viagem de técnicos brasileiros a Jamnagar, marcada para março de 2026, caiu “por motivo de força maior”, sem previsão de reagendamento. O episódio ocorre meses depois de o Brasil liderar, na COP15, a inclusão da ariranha na lista da ONU de espécies migratórias ameaçadas, protagonismo que a proposta indiana agora testa.

A ararinha é terreno sensível: o grupo solto na Caatinga em 2022 foi recapturado em novembro de 2025 por um surto de circovírus, enquanto outros programas nacionais de reprodução em cativeiro seguem avançando. “Devemos tomar cuidado para garantir que isso não se torne uma forma de facilitar o envio de animais para o Vantara ou servir como uma estratégia de greenwashing”, disse à reportagem Juliana Machado Ferreira, diretora-executiva da Freeland Brasil. O zoológico não respondeu às perguntas sobre o estágio das negociações.