O primeiro turno das eleições de 2026, realizado neste domingo (4), terminou com Flávio Bolsonaro na frente: 56 milhões de votos, contra 53 milhões de Lula, com 99,98% das urnas apuradas.
A diferença de 2.242.693 votos, equivalente a 1,90%, é a menor já registrada em um primeiro turno presidencial. Como nenhum dos dois passou de 50% dos válidos, a decisão fica para 25 de outubro.
Os mesmos números, na ordem inversa
O comparativo entre os dois pleitos, publicado pelo g1, mostra uma simetria quase exata. Em 2022, o primeiro turno acabou com Lula à frente, com 57.259.504 votos (48,43% dos válidos), contra 51.072.345 de Jair Bolsonaro (43,20%).
Quatro anos depois, a ordem se inverteu em patamares parecidos. Medido contra o próprio desempenho, o presidente soma 3.401.647 votos menos do que tinha na primeira votação de 2022.
O mapa também trocou de lado
Flávio foi o mais votado no Distrito Federal e em 14 estados — todas as unidades da Federação do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste. Lula teve mais votos em 12 estados, todos do Nordeste e parte do Norte.
Um levantamento do g1 detalha o tamanho dessas vitórias: das 15 unidades da Federação em que ficou na frente, Flávio superou 50% dos votos válidos em todas, exceto em Minas Gerais, onde ficou com 48,24% — teve, portanto, maioria absoluta em todo o Sul, todo o Centro-Oeste e no Distrito Federal. Lula também passou de 50% nos nove estados do Nordeste, mas não repetiu o feito em três dos estados do Norte em que venceu. Consolidando o resultado por região, o g1 mostra que Flávio também levou a soma de votos da região Norte como um todo, mesmo tendo perdido em três estados ali para Lula — enquanto no Nordeste o petista manteve sua força histórica, com quase dois terços dos votos válidos.
Outro levantamento do g1 isola o peso de três estados nesse resultado: juntos, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais concentram mais de 40% do eleitorado brasileiro e ajudam a explicar a virada. Lula teve cerca de 1,7 milhão de votos a menos nesses três estados do que obtivera no primeiro turno de 2022, enquanto Flávio Bolsonaro somou 1,3 milhão de votos a mais do que o pai, Jair Bolsonaro, havia recebido ali quatro anos antes — nos três estados em que o petista havia ficado na frente naquele ano.
Em 2022, o desenho regional era o mesmo, com os papéis trocados: Jair Bolsonaro venceu no Sudeste (23.470.529 votos), no Sul (9.568.041) e no Centro-Oeste (4.727.672), somando 37,7 milhões; Lula dominou o Nordeste (21.753.139) e o Norte (4.554.630), com 26,3 milhões.
As primeiras reações mediram o tamanho da surpresa: Lula classificou o resultado como “inesperado”, enquanto Flávio Bolsonaro afirmou estar “muito feliz”.
As pesquisas já vinham sinalizando o aperto
Já em março o Datafolha havia flagrado o início da virada: em três meses, a vantagem de Lula sobre Flávio em cenários de segundo turno encolheu de 15 para apenas 3 pontos.
No mesmo período, a Quaest registrou empate técnico em cinco dos sete cenários testados, com o presidente liderando apenas dois deles na simulação de primeiro turno.
Mais perto da votação, o quadro ainda indicava disputa acirrada: na véspera do primeiro turno, o PoderData/Aya mostrava Lula com 45% das intenções de voto válido, contra 43% de Flávio Bolsonaro — margem dentro do que o resultado das urnas confirmaria dias depois.
O que está em jogo até 25 de outubro
Em uma disputa decidida por 1,90%, o eleitorado que não compareceu ou não escolheu ninguém volta ao centro do cálculo das duas campanhas. Em 2022, a abstenção no primeiro turno foi de 20,95%, somada a 1,59% de votos em branco e 2,82% de nulos. Em 2026, a abstenção ficou em 33,4 milhões de eleitores, o equivalente a 21% do eleitorado apto a votar — um contingente que as duas campanhas vão tentar mobilizar até a nova votação.
Além da abstenção, pesam também os votos dos candidatos que ficaram fora da disputa principal. Augusto Cury (Avante) terminou em terceiro lugar, com 3.448.551 votos, seguido por Renan Santos (Missão), com 2.675.878. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Rui Costa Pimenta (PCO) somaram, juntos, 3.192.262 votos — 2,66% dos válidos. Segundo análise do Poder360, essa votação da chamada 3ª via equivale a 70% da diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro: se migrasse em bloco para o petista, reduziria a vantagem do senador a menos de 1 milhão de votos. A transferência, porém, não é automática — o eleitor desses candidatos pode optar por qualquer um dos dois finalistas, votar em branco ou anular o voto em 25 de outubro.
O precedente de 2022 mostra como essas margens podem se mover em poucos dias de campanha. Naquele ano, a vantagem de Lula sobre Jair Bolsonaro, de 5,23 pontos percentuais no primeiro turno, caiu para 1,8 ponto no segundo, depois que o PDT declarou apoio ao petista em 4 de outubro e Simone Tebet (MDB) fez o mesmo no dia seguinte, passando a fazer campanha ao seu lado — enquanto Romeu Zema apoiou Bolsonaro e Soraya Thronicke optou por se abster.
Os dois finalistas chegam à nova fase com rejeição alta: pesquisa PoderData/Aya encerrada em 2 de outubro, véspera da votação, apontou Lula rejeitado por 47% do eleitorado e Flávio Bolsonaro, por 46%. Para a reta final, as campanhas já desenham suas estratégias. Flávio, que concentrou o primeiro turno no discurso do voto útil contra o PT e chegou a dizer não considerar a hipótese de um segundo turno, agora busca ampliar o apoio de partidos e políticos que ficaram fora da disputa presidencial. Lula, por sua vez, pretende reforçar a aproximação com o eleitorado evangélico e manter bandeiras como a defesa da soberania nacional, o fim da escala de trabalho 6×1, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 e o aumento real do salário mínimo, além de sinalizar disposição do PT para dialogar com adversários do primeiro turno e com partidos de centro e de direita. Segundo o Poder360, a campanha petista também passou a associar Flávio a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, a Adriano da Nóbrega e ao caso das rachadinhas — acusações que o senador contesta.
O duelo também marca a 3ª eleição presidencial consecutiva entre petismo e bolsonarismo: em 2018, Jair Bolsonaro derrotou Fernando Haddad (PT) ainda no primeiro turno; em 2022, venceu Lula na disputa pela reeleição. A votação de 2026 é, ainda, a 10ª eleição presidencial direta seguida desde a redemocratização, em 1989 — período em que o país já elegeu Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro.
O segundo turno repete, portanto, um enfrentamento entre as mesmas duas forças de 2022 — agora com o campo da oposição partindo de uma dianteira inédita no placar de abertura.