O resultado do primeiro turno mudou o tabuleiro de outra eleição, marcada para fevereiro de 2027: a da presidência da Câmara e do Senado. Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP) querem continuar nos cargos, mas terão de negociar com um Congresso mais à direita.
A nova composição do Legislativo, segundo apuração do g1, estreita a margem de manobra dos dois: o PL elegeu a maior bancada da Câmara desde 1988 e ampliou sua presença no Senado, onde a direita já trata o comando da Casa como meta.
Na Câmara, a conta de 121 deputados
O PL chegará à próxima legislatura com 121 deputados federais — a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988. Nos bastidores, integrantes da legenda já avisam que Motta terá dificuldade para se reeleger, sobretudo se Flávio Bolsonaro vencer o segundo turno.
O líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), nunca escondeu que quer a cadeira. Outros parlamentares da direita falam em costurar um nome do Centrão mais alinhado ao campo conservador, como integrantes da federação União Brasil-PP.
O desgaste não nasceu agora. Eleito em 2025 com votos que iam do PT ao PL, Motta resistiu a pautar um projeto amplo de anistia aos condenados pelo 8 de janeiro e decretou a perda de mandato de Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem. A tensão com a cúpula do partido já aparecia em setembro de 2025, quando ele preferiu apostar em um projeto alternativo de Alcolumbre. Somou-se a isso o apoio explícito à reeleição de Lula, para quem pediu votos enquanto tentava eleger o próprio pai, Nabor Wanderley (Republicanos-PB), senador pela Paraíba. Wanderley ficou fora.
No Senado, faltam 41 votos para decidir
O cenário de Alcolumbre é mais delicado. Desde 2025, a direita transformou em projeto político eleger o maior número possível de senadores, justamente para disputar a presidência da Casa. O PL elegeu 19 nomes e chegará a 28 cadeiras, somando o apoio dos três senadores do Novo e de parte das bancadas de PP e Republicanos. Para presidir o Senado, são necessários 41 votos.
Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição e coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, e a líder do PP, Teresa Cristina (MS), já aparecem como possíveis candidatos. Alcolumbre, que está no meio do mandato e não disputava reeleição, saiu enfraquecido da eleição local: no Amapá, Clécio (União) perdeu a corrida ao governo e Randolfe Rodrigues (PT) e Alliny Serrão (União) não chegaram ao Senado. A relação com os senadores bolsonaristas, críticos de sua gestão na crise do STF, segue arranhada.
A aposta na PEC da escala 6×1
Interlocutores do presidente do Senado dizem que a PEC do fim da escala 6×1, cuja análise entra na pauta desta semana, será “prioridade”. Eles também afirmam que Alcolumbre tem apoiado Lula, “mas dentro da função institucional” — uma aproximação que contrasta com o período em que o atrito entre os dois travava pautas estratégicas do governo. Ainda assim, não houve declaração formal de voto, e a federação União-PP pressiona pelo apoio a Flávio Bolsonaro.
A PEC perdeu força no caminho. O cálculo do Planalto era votá-la o mais perto possível do segundo turno, como trunfo eleitoral. Em agosto, o PL tentou adiar a votação admitindo que perderia no plenário; agora, com o resultado do primeiro turno, o fim da pressão das urnas e empresários mobilizados contra a medida, senadores reconhecem que a aritmética ficou menos favorável.